Para Laurence Rees, eventos históricos não oferecem
lições, mas ajudam a identificar sinais de ameaças no presente
Obra alerta que as instituições responsáveis pelo nosso
bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos
Como estive doente na última semana, aproveitei os dias de
repouso para concluir a leitura de "A Mentalidade Nazi: 12 Avisos da
História", o mais recente trabalho do historiador e documentarista
britânico Laurence Rees.
Autor de obras como "Hitler e Stálin: os Tiranos e
a Segunda
Guerra Mundial" e "Auschwitz: os Nazis e a Solução Final",
Rees é reconhecido pela seriedade de suas pesquisas e pelo grande número de
entrevistas que realizou durante os anos em que atuou na BBC como editor de
programas de história.
Em seu novo livro, ele questiona a ideia de que o passado
poderia nos oferecer lições e propõe que estudemos eventos históricos a fim de
aprendermos a reconhecer tendências.
Diferentemente das lições, que geralmente
possuem caráter prescritivo, as tendências mostram como determinadas
circunstâncias podem favorecer a emergência de certos fenômenos, mas não
determinam as nossas ações. Afinal, como observa o historiador, as respostas do
passado raramente se aplicam ao presente com a mesma eficácia e cada nova
situação deve ser analisada cuidadosamente, levando em consideração as suas
especificidades.
Segundo Rees, o papel da história, especialmente em um
momento como o nosso, em que as democracias estão novamente sob ataque, seria o
de nos ajudar a identificar a tempo sinais de que tanto as nossas vidas quanto
as nossas instituições estão sendo ameaçadas.
Assim, ao reexaminar os acontecimentos que levaram Hitler ao
poder e culminaram no Holocausto, cada capítulo do livro recebe como título um
dos 12 sinais de alerta identificados pelo autor.
Entre esses sinais, Rees destaca a disseminação de teorias
da conspiração racistas e antissemitas, que culpavam os judeus pela derrota
da Alemanha na Primeira
Guerra Mundial, e mostra como o receio de uma revolta socialista foi
explorado durante a crise econômica e a hiperinflação da década de 1920,
aprofundando a fragmentação da sociedade em grupos antagônicos e mutuamente
excludentes.
Ele analisa a transformação da figura do herói em modelo de
liderança e seu impacto no sucesso da ideologia nazista entre os mais jovens e
reflete sobre a participação das elites na ascensão de Hitler. Rees também
deixa claro que, desde o início, o regime nazista atacou os direitos humanos,
tendo por alvo judeus e outras minorias étnicas e religiosas, bem como pessoas
com deficiência e opositores políticos.
O historiador ainda discute como Hitler explorou a devoção
de seus apoiadores por meio de discursos visionários que prometiam o retorno a
um passado imaginário, porém glorioso. Nesse sentido, ele observa que, durante
a guerra, à medida que os recursos se tornavam escassos, muitos desses
apoiadores tentavam se convencer de que Hitler era vítima da corrupção de
membros de seu próprio gabinete e ignorava as necessidades do povo.
Rees examina como o regime criou inimigos internos e
externos para unificar a população restante e relata, por fim, que as violentas
disputas entre oficiais nazistas pela atenção de Hitler geraram um ambiente
caótico, propício a uma radicalização ainda mais extrema entre seus acólitos.
Nesse cenário, foram tomadas as decisões que resultaram no
Holocausto, definido como um evento histórico complexo, marcado por uma
sequência gradual de medidas. Esse processo envolveu não apenas a criação de
campos de concentração, mas também a implementação de leis raciais e
capacitistas, a arianização de bens, a formação de guetos, os fuzilamentos em
massa, o aprimoramento de métodos de matança a distância e o desenvolvimento
das câmaras de gás.
Ao fim do livro, Rees nos alerta que as instituições
responsáveis pela manutenção do nosso bem-estar são muito mais frágeis do que
pensamos. Assim, na esperança de que não sejamos mais uma vez surpreendidos
pelos acontecimentos, deixo aqui essa sugestão de leitura como um convite à
reflexão sobre a vulnerabilidade do mundo em que vivemos.

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