Linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem
bons fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos
A aposta de que o “Paredão de Kassab”, como já é chamado o
processo de depuração da candidatura presidencial do PSD, finde na candidatura
do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, vale pouco hoje. Para um partido
vocacionado a fazer bancadas legislativas e acessar os recursos de poder delas
decorrentes, a linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem bons
fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos. Com menos do que isso, uma
candidatura presidencial própria não “puxa” bancada.
Em Estados como Pernambuco, em que o PSD
pretende reconduzir a governadora Raquel Lyra, ou Bahia, em que o partido
compõe chapa com os petistas incumbentes, por exemplo, a candidatura Caiado,
certamente, não favorece a eleição de bancadas.
Ainda que não sobreviva às convenções de junho, o processo
seletivo do secretário de Relações Institucionais do governo de São Paulo e
presidente do PSD, Gilberto Kassab, não passará desapercebido. A começar pela
desistência do governador Ratinho Júnior, do Paraná.
Sua decisão de permanecer no governo até o fim,
desperdiçando uma eleição certa para o Senado, demonstra o grau de dificuldade
que atribui à disputa de seu candidato, provavelmente o secretário de Cidades,
Guto Silva, contra o senador Sérgio Moro, que se filiou, na terça-feira (24),
ao PL.
A cerimônia de filiação, que colocou lado a lado Moro e o
senador e pré-candidato do partido, Flávio Bolsonaro (RJ), acontece seis anos
depois de o ex-ministro da Justiça deixar o governo Jair Bolsonaro.
Moro saiu atirando. Acusou o ex-presidente de pressioná-lo a
interferir na Polícia Federal em benefício dos filhos, particularmente do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que estava sendo acossado pelo
superintendente da PF no Rio, Ricardo Saad. Com a eleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, Saad foi escolhido pelo diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, para a diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à
Corrupção.
No ano passado, Saad deixou a PF para um cargo ainda mais
estratégico. Com a posse de Gabriel Galípolo, no Banco Central, foi nomeado
presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que tem
tido um papel crucial nas investigações do caso Master pela identificação de
transações bancárias suspeitas. Até aqui, os vazamentos do Coaf carimbaram o
entorno bolsonarista: o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato do União ao
governo da Bahia, ACM Neto, e o advogado Kevin Marques, filho do ministro do
STF, Nunes Marques.
Entre os pré-candidatos que permanecem no “paredão”, Caiado
tende a beneficiar mais a Lula, por disputar o eleitor de direita com Flávio
Bolsonaro. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é melhor para o
pré-candidato do PL pela razão inversa. Circula melhor ao centro e, por isso,
tende a tirar mais votos de Lula.
Se Caiado prevalecer sobre Leite, a campanha de 2026 terá
dois personagens da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, a de
1989. Caiado, à época candidato de um outro PSD, emergiu no governo José Sarney
como fundador da União Democrática Ruralista (UDR), que puxou a retranca dos
debates da reforma agrária da Constituinte. Apareceu na campanha presidencial
montado em um cavalo branco, imagem que seria exaustivamente ironizada pelo
candidato petista.
Outra imagem, que, certamente, será reprisada à exaustão
pela campanha lulista caso a candidatura do ex-governador goiano se confirme,
será a do debate daquela que, à época, ainda era chamada de TV Bandeirantes.
Caiado provocou Lula a lhe dirigir a pergunta que o petista faria a Paulo
Maluf. “Quando você chegar a 1,5% eu faço”, respondeu Lula. Naquele ano, o
candidato petista passou ao segundo turno, contra Fernando Collor, com 11,6
milhões de votos. Caiado, com 488 mil, ficou em 10º lugar na disputa.

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