quarta-feira, 1 de abril de 2026

O COMPLÔ SELENITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que 34% dos brasileiros não acreditam que homem pisou na Lua

Embora mais instruídos, americanos também creem em seu quinhão de bobagens

Deu no Datafolha que 34% dos brasileiros não acreditam que o homem já pisou na Lua. Não é algo que devesse ser colocado em dúvida. O esforço científico para levar astronautas ao satélite natural da Terra e trazê-los de volta está fartamente documentado.

O primeiro passeio de Neil Armstrong em território selenita foi transmitido ao vivo pela TV em 1969 e testemunhado por milhões de terráqueos. Para ser cético em relação à conquista da Lua é preciso ter fé cega em conspirações secretas.

O complô lunar não é a única crença demonstravelmente falsa exibida por minorias significativas de brasileiros. Sondagens anteriores do Datafolha mostraram que 25% creem em Adão e Eva e numa Terra com menos de 10 mil anos; a proporção de terraplanistas entre nós é de 7%. A resposta quase automática de quem toma conhecimento desses números é "precisamos de mais escola!".

A própria pesquisa do Datafolha sugere que, nos estratos mais instruídos, é menor o índice de selenicéticos. Mas não penso que educação baste para resolver o problema. Os americanos têm mais anos de instrução que os brasileiros (13,7 contra 10,1) em sistemas de melhor qualidade, mas isso não os impede de acreditar em seu quinhão de bobagens.

Dois terços dos americanos acreditam em anjos e demônios; 75% creem em fenômenos paranormais; e 20% pensam que o Sol gira em torno da Terra. Num tributo à paranoia, 33% julgam que o governo age em conluio com a indústria farmacêutica para esconder "curas naturais" que existem para o câncer.

Embora tenha se tornado um lugar-comum afirmar que a democracia depende de um consenso em torno dos fatos, Jonathan Rauch, que já citei aqui, observa que esse tipo de unanimidade nunca existiu. O que havia e era importante para a, digamos, estabilidade epistêmica, era que uma elite de políticos, cientistas e outros detentores de postos-chave estivessem de acordo sobre o método para estabelecer os fatos e regras básicas para interpretá-los. É esse consenso mais elitista que vai mostrando trincas.

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FLÁVIO BOLSONARO SEGUE OS PASSOS DO PAI E PLANTA SEMENTES DA DESCONFIANÇA ELEITORAL

Ana Luiza Albuquerque, Folha de S. Paulo

Em discurso na maior conferência conservadora dos EUA, senador pediu 'pressão diplomática' para eleições livres e justas no Brasil

Assim como Jair Bolsonaro em 2018, pré-candidato à Presidência disse que vencerá se os votos forem contados corretamente

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).

Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.

"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.

Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.

O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".

Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.

Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.

Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.

Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.

"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."

O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.

Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.

Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.

A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.

Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".

O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.

"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."

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ESOPO NA CASA BRANCA: A MORAL DA HISTÓRIA QUE TRUMP ESQUECEU

Roberto DaMatta*, O Estado de S. Paulo

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados portaaviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.

Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.

No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.

Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.

Em meio à polêmica, ouviuse a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.

Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.

*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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O REI DO GADO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Chá de revelação do PSD sepulta ilusão de 'terceira via' kassabista

Caiado promete indulto a Bolsonaro, mas quer disputar rebanho que já tem dono

Gilberto Kassab apresentou seu novo candidato ao Planalto. É Ronaldo Caiado, o patriarca da direita ruralista. O escolhido já tem experiência em eleições presidenciais. Terminou a de 1989 em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Ao se lançar na disputa, Caiado anunciou que seu primeiro ato no poder seria um indulto a Jair Bolsonaro. No mesmo discurso, prometeu “desativar a polarização”.

Difícil entender como uma coisa levaria à outra. A história mostra que dar impunidade a golpistas não pacifica o país. Ao contrário: aprofunda divisões e serve de incentivo para novas tentativas de ruptura.

A indicação de Caiado sepultou a ilusão de que o PSD encarnaria uma “terceira via” centrista. O candidato deixou claro que trafega na mesma pista que o bolsonarismo. “Nós ganhamos do PT em 2018”, disse, enfatizando a primeira pessoa do plural.

Caiado acrescentou que seu objetivo é garantir que o petismo “não seja mais opção no país”. A frase ecoou uma célebre declaração de Jorge Bornhausen, que planejava “se ver livre dessa raça” por 30 anos. Aos 88, o ex-senador segue na ativa como conselheiro de Kassab.

O chá de revelação do PSD frustrou Eduardo Leite, que ainda sonhava convencer o dono da sigla a lançá-lo. Sua promessa de apoiar o vencedor da disputa interna durou pouco. Ele criticou a escolha e evitou declarar voto em Caiado.

O gaúcho não está sozinho. Dos sete governadores do PSD, quatro ignoraram o anúncio do presidenciável. Na maioria dos estados, os chefes da legenda já se comprometeram com Lula ou Flávio Bolsonaro.

Boicotado na própria legenda, Caiado terá pouco tempo para se mostrar competitivo. Seu maior trunfo é o alto índice de aprovação em Goiás, onde sua família está ligada ao poder desde o Império. Em dois mandatos de governador, ele investiu no discurso linha-dura na segurança. A aposta deve ser reprisada na campanha ao Planalto.

O desafio é suavizar o jeitão de rei do gado para buscar votos fora do cinturão do agro. Não será tarefa fácil. A julgar pelas pesquisas, o rebanho que ele cobiça já tem dono.

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