Oposição a Tarcísio já deixou claro que a privatização
será um dos principais focos da tentativa de desconstruir a imagem de eficácia
A privatização da Sabesp entrou definitivamente na pauta da
campanha eleitoral em São Paulo. Isso porque começam a aparecer efeitos
mensuráveis da venda, e muitos deles não são bons.
Concluída em julho de 2024, a operação marcou a venda do
controle da companhia pelo governo de Tarcísio de Freitas, com a transferência
de participação relevante ao setor privado e a entrada de um investidor de
referência. Foram vendidos cerca de 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, com a
Equatorial Energia adquirindo 15% e assumindo posição estratégica. O governo
manteve participação minoritária e estruturou o modelo, com metas de
universalização até o fim da década e promessa de até R$ 66 bilhões em investimentos.
Mas as notícias recentes não são positivas.
As reclamações na Arsesp, a agência reguladora de serviços públicos do estado,
mais que dobraram entre 2024 e 2026, enquanto as queixas por cobranças
consideradas indevidas quase quadruplicaram. No Procon, a empresa passou a
registrar uma média próxima de 19 reclamações por dia.
Na campanha de 2022, Tarcísio defendeu a privatização com
base em três promessas: aumento de investimento, melhoria de eficiência e
manutenção de tarifas sob controle. Fernando Haddad, por sua vez, sustentou que
a mudança poderia produzir exatamente o contrário no curto prazo: pressão
tarifária, conflitos de cobrança e perda de capacidade de mediação pública. Os
dados atuais não permitem uma conclusão fechada sobre o modelo, mas mostram que
a promessa de transição sem sobressaltos não se concretizou.
Há relatos recorrentes de contas que passaram de cerca de R$
60 para R$ 150 ou mais após substituição de hidrômetros ou revisão de consumo.
Mesmo que parte desses casos tenha explicação técnica, o efeito prático é um
aumento abrupto na percepção de custo. Há ainda reclamações sobre redução de
pressão e interrupções pontuais no abastecimento, especialmente em horários
noturnos. A oposição a Tarcísio já deixou claro que a privatização será um dos
principais focos da tentativa de desconstruir a imagem de eficácia do governo
do aliado da família Bolsonaro.
O tema das privatizações é um daqueles que contrapõem de
forma clara a diferença de visão de gestão entre direita e esquerda. Esse
movimento já começa a aparecer nas falas de atores do campo lulista, como o
vice-presidente Geraldo Alckmin, que conhece a Sabesp a fundo, de suas quatro
passagens pelo governo paulista. Até aqui os ataques não são frontais, mas a
ordem é subir o tom. Para Haddad, trata-se de um caminho para resgatar os
debates de 2022 e tentar ao menos reduzir a vantagem de Tarcísio apontada pelas
pesquisas eleitorais.
Os aliados do governador dizem que ele está à vontade para
defender a venda e suas vantagens para os paulistas e que não se assusta com a
“blitz” do bloco lulopetista, que tem, além do reforço de Alckmin, o de
ministros e ex-ministros designados para colocar o foco total no tabuleiro
paulista.
Mas há um desafio para além da disputa ideológica para
Tarcísio: comprovar o acerto da decisão de vender uma empresa, que era bem
avaliada com base em dados concretos e na vivência de mais de um ano dos
usuários. Isso exigirá mais que reiterar investimentos previstos, que de fato
cresceram, com planos que chegam a R$ 84 bilhões até 2030. Exige reduzir, em
prazo curto, o volume de reclamações e estabilizar a relação com o usuário.
Temas específicos não têm o condão de definir, sozinhos, uma
eleição. Mas Tarcísio é um gestor de um mandato só, e o PT tentará transformar
a eleição numa comparação entre esse legado e os governos anteriores. Não deixa
de ser irônico e sinal das reviravoltas típicas da política o fato de a maior
arma de Lula e Haddad para tentar melhorar sua situação em São Paulo seja
resgatar o legado do PSDB no estado, a que o PT se opôs de forma sempre
peremptória ao longo de décadas.

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