Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de
esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para
preservar alianças e estabilidade
Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da
ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as
eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do
Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da
Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a
Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm
perfis completamente diferentes.
Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua
trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da
luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda
e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa
origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos
organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e
mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente,
com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico,
interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu
perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher
resultados.
Essas diferenças traduzem estratégias
distintas dentro do próprio governo, as quais o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva estimula como forma de ampliar sua margem de manobra. No caso da proposta
de extinção da escala de trabalho 6 x 1, a divergência entre ambos se tornou
explícita e revela duas táticas políticas em disputa no interior do Planalto
para lidar com o Congresso no processo eleitoral. Levada à prática, porém, essa
dualidade costuma causar mais problemas do que soluções.
Boulos defende uma mudança imediata, sem transição
prolongada, uma pauta urgente de justiça social e qualidade de vida. Para ele,
a manutenção da escala 6 x 1 representa uma forma de exploração que compromete
não apenas a saúde física e mental do trabalhador, mas, também, sua capacidade
de convívio familiar e desenvolvimento pessoal. É contra qualquer tentativa de
uma transição longa, com implementação gradual ao longo de anos, que seria uma
forma de esvaziar politicamente a medida. Ao defender que o fim da escala seja
“para agora”, Boulos revela uma estratégia eleitoral que busca mobilizar a base
social do lulismo e alargar a chamada “economia do afeto” para vencer as
eleições.
Guimarães adota postura cautelosa. Embora não se oponha ao
mérito da proposta, sinaliza abertura para negociação no Congresso. Inclusive,
admite a possibilidade de uma transição. Sua preocupação central é garantir que
a mudança seja aprovada sem provocar reação adversa do setor produtivo ou da
maioria parlamentar, cuja composição é mais conservadora. Ao afirmar que o tema
deve ser “discutido” e que o formato final dependerá do Congresso, Guimarães
reforça sua lógica de construção gradual de consenso, sem rupturas políticas
que possam comprometer a governabilidade. A oposição também vê a questão pela
ótica eleitoral e, por isso, é contra.
Debate chega atrasado
Essa divergência expressa duas visões sobre o ritmo e o
método de transformação social: uma é orientada pela pressão política e pela
mobilização, representada por Boulos e os partidos de esquerda; outra, guiada
pela negociação institucional e pelo cálculo de viabilidade, encarnada por
Guimarães e os aliados do governo mais ao centro. Essa é uma velha encruzilhada
dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o
passo para preservar alianças e estabilidade.
O debate sobre a escala 6 x 1 chega até atrasado. A jornada
5 x 2, por exemplo, nos Estados Unidos, foi adotada por Henry Ford na sua linha
de produção de automóveis, em 1926. O modelo brasileiro atual — de até 44 horas
semanais — está entre os mais extensos em comparação com países desenvolvidos.
Na Europa, observa-se uma tendência consolidada de redução da jornada, com
ganhos de produtividade, avanço tecnológico e valorização do bem-estar. Países
como Alemanha, Dinamarca e Noruega operam com cargas médias entre 26 e 28 horas
semanais, enquanto a França adota uma jornada de cerca de 30 horas e a Itália,
em torno de 35 horas.
Esses modelos se apoiam em três fundamentos. O primeiro é
econômico: trabalhadores menos exaustos tendem a ser mais produtivos. O
segundo, social: jornadas menores ampliam o tempo disponível para educação,
lazer e convívio familiar, contribuem para a coesão social e para economia do
lazer e da cultura. O terceiro é tecnológico: a automação e a digitalização
permitem produzir mais com menos horas de trabalho humano, torna possível
redistribuir o tempo sem perda de eficiência. Jornadas de quatro dias (4 x 3) têm
sido testadas em países como Reino Unido e Espanha.
No Brasil, relações de trabalho marcadas por desigualdade e
informalidade, somadas à baixa produtividade média, dificultam a adoção
imediata de modelos mais avançados. Por isso, a tendência é a transição para o
modelo 5 x 2, já presente em diversos setores. A proposta de jornadas mais
curtas, como a 4 x 3, esbarra na maioria do Congresso.

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