Benguela, na costa de Angola, sofre consequências de uma
tempestade
Cidade foi eternizada no Brasil pela líder abolicionista
Tereza de Benguela
Nos primeiros dias de abril, uma tempestade de grandes
proporções atingiu a cidade de Benguela, na costa de Angola. A cidade
—eternizada no Brasil pela líder abolicionista Tereza de Benguela, pelos cantos
de Clementina de Jesus e por toda uma tradição de memórias e
práticas culturais afrodescendentes— hoje precisa de ajuda.
As chuvas provocaram o rompimento de um dique, o que levou
ao transbordamento do rio Cavaco, deixando um rastro de casas e infraestruturas
submersas e destruídas. Rodovias e ferrovias foram interrompidas, e o sistema
de abastecimento de água ficou comprometido.
Segundo fontes oficiais do Ministério da Ação Social,
Família e Promoção da Mulher de Angola (Masfamu) e do Governo Provincial de
Benguela, a situação é drástica: aproximadamente 15 mil pessoas estão
desabrigadas; há inúmeros desaparecidos e o número de mortos ainda varia
conforme as contagens iniciais. Veículos de imprensa da lusofonia africana,
como a revista online
Bantumen, falam em ao menos 45 mortos.
A maior parte dos desabrigados está concentrada em três
pontos: no Estádio Nacional de Ombaka e nas regiões de Campismo Novo e Campismo
Antigo. Trata-se de uma área que, nos últimos anos, já vinha recebendo apoio de
agências internacionais em razão de surtos de cólera e outras condições
estruturais agravadas por um histórico de exploração colonial. Com a inundação,
esse quadro se intensificou.
Segundo a feminista angolana Ângela Maria Feijó, em
entrevista a esta coluna, mais do que um episódio climático, "trata-se de
uma crise humanitária em curso, com relatos de deslocamento forçado,
interrupção de atividades escolares e dificuldades de acesso a serviços
essenciais. Para muitos, a perda vai além de bens materiais —atinge vínculos,
memórias e condições de estabilidade".
Feijó aproxima o cenário de Benguela a tragédias recentes no
Brasil: "O caso de Benguela não é isolado. Eventos semelhantes se repetem
em diferentes regiões do mundo, especialmente no Sul Global. No Brasil,
tragédias recentes em cidades como Petrópolis, Recife e localidades do Sul do
país revelam um padrão reconhecível".
"Diante desse cenário, cresce a necessidade de atenção
internacional. Benguela demanda respostas urgentes, com mobilização de recursos
para garantir abrigo, alimentação, assistência médica e apoio psicológico às
populações afetadas", completa.
O Brasil ainda enfrenta uma rota tortuosa para quem deseja
ajudar Benguela —reflexo da dificuldade histórica de reconhecer e valorizar
suas próprias raízes africanas. Eu mesma, ao tentar contribuir, encontrei
obstáculos. Há poucas informações disponíveis e, mesmo em contato com a
Embaixada do Brasil e com parceiros angolanos, estabelecer uma ponte de apoio
mostrou-se um desafio.
Segundo informações da embaixada brasileira em Luanda, o
governo angolano, por meio da sua Comissão Nacional de Proteção Civil, tem
enfatizado a importância de canalizar doações por meio de organizações já
estabelecidas no território, como a Cruz Vermelha de Angola e a Cáritas, braço
social da Igreja Católica, que atuam em articulação com as autoridades locais.
O catolicismo, religião de cerca de 44% da população
angolana, tem desempenhado papel central na organização do apoio às vítimas.
Nesta terça-feira (21), encerrou-se no país a visita do papa Leão 14, que
reuniu multidões. Em seus pronunciamentos, o pontífice criticou o modelo
econômico extrativista, que concentra benefícios em elites enquanto deixa
populações à margem, produzindo "sofrimento, mortes e catástrofes sociais
e ambientais".
As falas do sumo pontífice convergem com a teoria social
sobre extrativismo, que vem crescendo no círculo acadêmico internacional. A
coincidência de sua visita com os eventos climáticos em Benguela conferiu ainda
mais peso simbólico à sua passagem pelo país.
Diante da situação, do posicionamento do papa e da rede
transnacional de solidariedade, ficam os pedidos para que a Igreja Católica no
Brasil, por meio da rede Cáritas, mobilize redes de doação, abrindo caminhos
para que fiéis —e pessoas de todas as crenças— possam contribuir, ainda que com
pouco, mas com a força coletiva que transforma.
Além disso, fica aqui um apelo: que o governo brasileiro
consulte o governo angolano para, caso haja abertura, organizar o envio de
mantimentos, equipes e equipamentos. Que o governo, ainda, monte um canal
oficial para a contribuição do povo brasileiro ao povo angolano.
Nossas orações estão com Benguela. Que o povo que tanto contribuiu para a formação
do Brasil possa superar esse enorme desafio.

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