No seu triunfalismo midiático, Donald Trump vai logo
cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém,
patenteou-se a miopia de sua estratégia
Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras.
Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia
compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu
convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam
perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro. Movido
por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou
Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas
do Estreito.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth
ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo
também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se
renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA
no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento.
Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do
governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico
que, caso Ormuz continuasse fechado, "uma civilização inteira desaparecerá
para sempre na noite de hoje". Como? Explodindo bombas atômicas? Matando
90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando
vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém,
patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma
guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder
americano.
O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária
demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de
Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e
os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o
Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor
nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da
guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a Otan. Ao negarem ajuda
para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o
imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma
hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria
Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o
fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis
fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia
renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que
domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança
dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi
decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo,
manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da
guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o Aukus, aliança
estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no
Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a
China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O
próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os
iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático
chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes árabes já manifestaram de
público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por
Netanyahu. Os prognósticos Democratas com relação às eleições parlamentares de
4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de
que uma derrota Republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso
americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições do
último domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a
influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou
jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo
equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de
que, no âmbito do direito internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso
mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um
impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal
Internacional.
*Jose Vicente Pimentel — embaixador aposentado

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