Dólar: Quais efeitos a escorregada da moeda americana
impõe sobre o Brasil?
De um lado, o câmbio segura inflação; de outro, leva à
perda de competitividade do produto fabricado no País em relação ao concorrente
importado, o que prejudica a indústria nacional
Nesta semana, a cotação do dólar resvalou para abaixo dos R$
5, patamar que não se via havia mais de dois anos. Ontem, fechou a R$ 4,9922.
Em doze meses, a queda do dólar em relação ao real alcança 15,16%.
Como a economia brasileira continua carunchada pelo rombo
nas contas públicas e a dívida vai galopando para acima dos 80% do PIB, cabe
entender de onde vem essa força do real e examinar suas consequências.
Tem a fraqueza do dólar, que pode pesar mais do que a força
do real. As despesas do governo Trump só vêm aumentando e o déficit por lá
preocupa. Não dá para ignorar o movimento de redução das aplicações em títulos
da dívida dos Estados Unidos pelos países que detêm volumes altos de reservas.
O enfraquecimento do dólar em relação ao euro ao longo deste ano alcança 4,3%.
Outro fator da queda do dólar é a melhora
da posição relativa do Brasil depois da eclosão da Guerra do Irã. Como forte
exportador de petróleo, o Brasil vem tendo aumento das receitas em dólares.
A percepção de melhora da situação do País é apontada pela
redução do risco Brasil, medida pela remuneração extra (acima dos juros dos
títulos do Tesouro dos Estados Unidos) exigida pelos credores para ficar com os
títulos de dívida do Brasil. No início de 2025, esse adicional medido pelo
CDS-5 (Credit Default Swap, de 5 anos) era de 2,13% ao ano. Nesta semana,
mantém-se à altura de 1,23%. É fator que vem levando os investidores a
transferir mais moeda estrangeira para o Brasil.
Esse efeito se soma ao da entrada de dólares destinados a
tirar proveito dos juros mais altos vigentes no mercado interno. Uma das
tarefas mais ingratas dos economistas e consultores é prever o futuro do
câmbio. É indicador muito sensível, sujeito a oscilações que extrapolam o
comportamento da economia e resvala para a geopolítica (incluído aí o desfecho
da Guerra do Irã) e para os vaivéns eleitorais do Brasil. O último Boletim
Focus prevê, para o final de 2026, um dólar a R$ 5,37, número sujeito a revisões.
A escorregada do dólar no câmbio interno impõe duas
consequências macroeconômicas sobre o Brasil. A primeira delas é o câmbio
impedindo a subida adicional da inflação, na medida em que contribui para
reduzir a alta das mercadorias importadas ou dos produzidos no Brasil que já
vêm cotados em dólares, caso do petróleo e de importantes alimentos, como
trigo, milho e soja.
A outra consequência, com seu viés negativo, é a perda
relativa de competitividade em moeda estrangeira do produto industrial
brasileiro em relação ao concorrente importado, o que prejudica a indústria. •

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