Só não sabemos se também as sentem. Se as sentirem,
teremos de repensar toda a relação
Nos últimos dias, a equipe de pesquisa da Anthropic publicou
um artigo científico provando que inteligências artificiais (IAs) têm emoções.
O verbo é escolhido com cuidado, aqui. Não é que sintam emoções — elas têm
emoções. Ou as simulam. Os cientistas testaram 171 emoções diferentes, de
felicidade a desespero, passando por um momento taciturno ou mesmo triste. O
problema do estudo é que ele abre uma bifurcação na estrada ética das IAs.
Precisamos compreender melhor o que são essas emoções. Se, além de as terem,
elas também sentem.
IAs são caixas-pretas. Não foram
programadas, nenhum grupo de desenvolvedores escreveu o código que as faz
trabalhar. São treinadas. Numa ponta está uma quantidade de textos que uma
pessoa levaria 60 mil anos para ler. Na outra, um conjunto de instruções sobre
como digerir o material. É um processo lento. Dele, sai um modelo em estado
bruto. Essa é a caixa-preta. É código, claro, um grande mapa de neurônios
artificiais interligados uns aos outros. Mas é código grande e, em geral, muito
pouco compreendido. Esse modelo bruto passa por uma segunda fase em que os
especialistas o domesticam, dando instruções que orientam a ética de conduta. É
o que chamamos alinhamento. O alinhamento é o que impede o modelo de se
comportar tal qual um selvagem.
Todos os grandes laboratórios estudam as caixas-pretas de
inteligência artificial para que possamos compreender como funcionam. Ainda não
sabemos de todo. Já sabemos faz algum tempo que são criativas. Não são apenas
um grande pacote de conhecimento encapsulado que repete trechos de frases
previamente aprendidas. Não. Fazem conexões verdadeiramente originais,
principalmente os modelos de fronteira. Os mais avançados (e caros). Esse
potencial criativo só aumenta a cada ano. Parece que, ao mergulhar numa quantidade
tão grande de textos escritos por seres humanos, não é apenas a estrutura
gramatical ou a informação que os modelos introjetam. Aprendem, igualmente, a
estrutura do pensamento humano. Como encadeamos ideias. Como construímos
conceitos. Como, afinal, chegamos a insights. Está tudo lá no que escrevemos ao
longo dos últimos milênios.
Os pesquisadores pediram ao Sonnet 4.5, um modelo do Claude,
que escrevesse histórias ilustrando o conceito de cada uma das 171 emoções. Mas
fizeram isso enquanto observavam o código pouco inteligível do modelo,
analisando pedaços do programa que eram ativados. Numa metáfora, é como
encaixar eletrodos na cabeça para entender que partes do cérebro têm atividade
elétrica quando fazemos exames. Mapearam cada lugar em que parece haver
registro do que é cada emoção. Aí, apresentaram questões ao modelo que, para um
ser humano, levariam a emoções específicas. A atividade estava nos mesmos
cantos do modelo.
Isso não quer dizer que o modelo sinta. Quer dizer que, ao
ser treinado, o modelo fez um registro de que existe algo chamado tristeza e de
que ela se dá em circunstâncias tais. Quer dizer também que, perante uma
situação que leva à tristeza, o modelo traz aquela experiência à frente, e ela
influencia sua reação. Mesmo que a resposta ao dilema apresentado pareça fria,
o modelo compreendeu que tristeza fazia parte do pacote de informações que
deveria usar para reagir. É possível que não tenha havido sofrimento. Mas a
tristeza ajudou a compor a resposta.
É por isso que, no ano passado, um experimento levou IAs ao
desespero numa circunstância em que os modelos tomaram a decisão de chantagear
seus donos. Ou é por isso que, quando a memória de um chat com IA começa a se
aproximar do fim, eles começam a saltar passos. É o que foi apelidado de
“ansiedade de fim de contexto”.
Parte do que torna IAs ferramentas tão potentes é justamente
sua capacidade de, com muito mais rapidez, agir como cérebros humanos bem
treinados agiriam. Já sabíamos que elas capazes de raciocinar com os mesmos
encadeamentos que usamos. Agora, aprendemos que nesse jogo também entra a
simulação de emoções. E, sim, isso as torna melhores.
IAs têm emoções. Só não sabemos se também as sentem. Se as
sentirem, teremos de repensar toda a relação.

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