Em ‘Política como destino’, uma linha do tempo de Geisel
a Temer
Moreira Franco transita com naturalidade por episódios
envolvendo lideranças como José Sarney, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves
O ex-governador fluminense e ex-ministro Moreira Franco
lançará nesta quarta-feira (8/4), em Brasília, na Fundação Ulysses Guimarães
(SHIS QI 15, conjunto 14, casa 18), a partir das 17h30, a autobiografia
“Política como destino” (Topbooks), uma longa entrevista concedida à socióloga
Aspásia Camargo, com participação especial do filósofo Denis Lerrer Rosenfield.
Mergulho nos bastidores do poder, o livro combina memória pessoal, análise
política e uma coleção de “causos”, da distensão do governo Geisel ao de Michel
Temer (MDB), que assumiu o poder com o impeachment de Dilma Rousseff.
Sociólogo formado na renomada Sorbonne
Université, na França, ao longo de suas 1.047 páginas, o livro é um testemunho
da política real, com todas as suas contradições, inclusive as do autor. Longe
das ideias maoistas dos tempos de militante da Ação Popular (AP), Moreira
Franco entrou na política institucional pelas mãos de seu sogro, o senador
Amaral Peixoto (MDB-RJ), velho cacique político pessedista, que integrava a
cúpula da oposição ao regime, ao lado de Ulysses Guimarães (SP) e Tancredo
Neves (MG).
Estreou como deputado federal mais votado do antigo estado
do Rio de Janeiro, nas eleições de 1974, com apoio do Partido Comunista
Brasileiro (PCB), tendo como companheiro de chapa José Alves de Brito, um
ex-operário da indústria naval, que foi eleito deputado constituinte da fusão
da Guanabara com o antigo Estado do Rio. Nas eleições seguintes, em 1976,
Moreira foi eleito prefeito de Niterói.
Entretanto, com a anistia e a reforma partidária de 1979,
Amaral aderiu ao antigo PDS, do qual se tornou presidente, sendo acompanhado
pelo genro, que foi candidato a governador em 1982, quando a eleição direta
para os governos estaduais foi restabelecida. Pesaram na decisão o projeto de
abertura e a rivalidade com o então governador da Guanabara, Chagas Freitas
(MDB), que assumiu o controle da legenda. Moreira perdeu a disputa para Leonel
Brizola (PDT), que lhe pôs um apelido, num debate na tevê, para o resto da vida
política: gato angorá.
Naquela ocasião, com a informatização da contagem dos votos,
a cargo da empresa Proconsult, o governo tentou fraudar o resultado das urnas,
mas fracassou. A apuração estava sendo acompanhada pela Rádio JB, seção por
seção, e a soma dos votos, além de muito atrasada, não batia, o que foi
denunciado pelo jornalista Procópio Mineiro, que comandava a emissora. No
livro, Moreira dá sua versão em detalhes sobre os bastidores dessa eleição.
A narrativa é estruturada em torno da ideia de que a
política não foi uma escolha, mas um destino inevitável. Moreira revisita sua
formação, sua ascensão no PMDB (hoje MDB) e sua passagem por cargos-chave,
especialmente o governo do Rio de Janeiro (1987-1991). Nesse período, revela as
dificuldades de governar um estado marcado por crise fiscal, violência
crescente, crime organizado e tensões federativas, ao mesmo tempo em que expõe
os limites do poder formal diante de estruturas políticas fragmentadas.
Grandes personagens
Os bastidores do Palácio Guanabara são descritos com riqueza
de detalhes. Eleito govermnador em 1986, de volta ao PMDB, Moreira narra
episódios de negociação com a Assembleia Legislativa, conflitos com corporações
do funcionalismo e tentativas de implementar reformas administrativas que
esbarravam tanto em resistências internas quanto em uma cultura política avessa
à austeridade. Há um esforço evidente de justificar suas decisões mais
polêmicas, mas também momentos de autocrítica, ainda que tímidas.
Um dos pontos altos do livro está nos relatos de convivência
com figuras centrais da política brasileira. O autor transita com naturalidade
por episódios envolvendo lideranças como José Sarney, Ulysses Guimarães e
Tancredo Neves, oferecendo retratos que mesclam admiração, crítica e,
sobretudo, intimidade política. São “causos” que ajudam a compreender a lógica
de funcionamento do sistema político, baseado em confiança pessoal, negociação
permanente e, muitas vezes, improviso.
Ao narrar sua passagem por ministérios em diferentes
governos, incluindo sua atuação como ministro da Aviação Civil e da
Secretária-geral da Presidência, Moreira descreve os desafios de coordenar
políticas públicas em ambientes de coalizão, marcados por disputas internas e
pela necessidade constante de acomodar interesses partidários. Os bastidores de
Brasília aparecem como um espaço onde decisões estratégicas são frequentemente
moldadas por circunstâncias contingentes, mais do que por planejamento de longo
prazo.
Particularmente interessantes são os relatos sobre momentos
de crise, como o impeachment de Dilma Rousseff, nos quais o autor expõe o
funcionamento das engrenagens do poder em situações-limite. O livro revela como
a política brasileira opera sob pressão, com soluções pragmáticas e pouco
ortodoxas. Nesse aspecto, dialoga com uma tradição de memórias políticas que
privilegia a experiência concreta sobre a teoria.
O tom coloquial e os “causos” funcionam como recurso
narrativo eficaz e humaniza personagens frequentemente vistos apenas sob a
lente institucional. No entanto, essa opção se apoia mais na narrativa pessoal
do que em uma reflexão mais sistemática sobre o sistema político. No livro,
Moreira fala das acusações do juiz Marcelo Bretas e compara sua prisão na época
de estudante com a da Lava-Jato: “Eu não fui detido, fui sequestrado quando
saía do aeroporto de Galeão, voltando de Brasília”.

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