Não fazemos nossa parte e vamos ao Judiciário reclamar de
qualquer coisa
Muita gente reclama que o Judiciário se mete em tudo. No
entanto é complicado buscar uma solução diferente quando não fazemos nossa
parte e vamos até ele reclamar de qualquer coisa.
No último dia 10, o STF precisou
se manifestar para permitir a expedição de novos alvarás para demolições,
cortes de árvores e construções de prédios na cidade de São Paulo. Isso porque,
no final de fevereiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu a emissão
desses alvarás até segunda ordem.
Um território de 1.522,7 km², com
11.904.961 pessoas, ficou mais de um mês sem poder construir novos prédios e
novas moradias por causa de uma caneta, quando se entendeu que não houve a
participação popular devida no processo legislativo que deu origem à lei de
zoneamento urbano de 2024.
Muitas questões aqui precisam de registro, do ponto de vista
do impacto dessa suspensão, remediada pelo ministro Edson Fachin. A primeira é
que quase 4 mil empreendimentos ficaram parados por causa da decisão do TJ-SP.
Outra é que essas interrupções não geram problemas apenas para o setor privado,
mas também para o público, porque obras de novas escolas e novos hospitais
públicos também são paralisadas.
A Procuradoria da Câmara Municipal expôs que houve
“interrupção da aprovação de 375 unidades de habitação de interesse social por
dia, comprometimento de até 197 mil postos de trabalho no setor da construção
civil e de até R$ 90 bilhões de investimentos desse mesmo segmento, bem como
perda de R$ 4,2 milhões por dia em outorga”.
Outro ponto importante é que a alegação de ausência de
participação popular perde força quando se tem o registro de 38 audiências
públicas realizadas antes da aprovação da lei. “A participação popular usada
como argumento pelo TJ é, de fato, imprescindível ao tratar de decisões acerca
do desenvolvimento da cidade, mas este é um ponto que pode ser discutido sem
invalidar as 38 audiências públicas documentadas”, diz Gislene Teixeira, mestre
em planejamento urbano pela UFPR.
Um último ponto: esta não é uma defesa do lucro das
empreiteiras, mas sim um alerta para a captura do espaço público pelos
interesses privados da elite quando se fala em planejamento urbano. Em seu
livro intitulado “Fatos e falácias da economia”, Thomas Sowell revela que,
embora as intervenções no planejamento urbano sejam frequentemente apresentadas
como formas de “melhorar” a cidade ou “ajudar os pobres”, o resultado prático
foi, muitas vezes, a destruição de comunidades negras e o deslocamento dessa população
para áreas periféricas ou menos valorizadas.
É possível fazer um paralelo com o caso vivido em São Paulo.
Gislene aponta que “os projetos suspensos pela decisão do TJ seriam
responsáveis por convencer a população a ocupar novamente a centralidade do
município e dariam maior espaço à população mais pobre, historicamente
empurrada para as periferias, de modo que suspender essas obras é o mesmo que
afirmar para essa população que seu lugar não é ali”.

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