Mais uma vez, os políticos mineiros fazem jus à fama de
esconderem o jogo com habilidade e discrição
Segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais é o
enigma da eleição presidencial de 2026. Os principais pré-candidatos ao
Planalto ainda não dispõem de palanques no Estado. Mais uma vez, os políticos
mineiros fazem jus à fama de esconderem o jogo com habilidade e discrição,
mesclando instinto de autopreservação com tática para enganar adversários.
Hoje, as belas paisagens de Minas não garantem sossego a
ninguém. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu convencer o
senador Rodrigo Pacheco a filiar-se ao PSB, mas ainda não o viu lançar-se de
fato na disputa ao governo estadual. O bolsonarismo está rachado, diante da
possibilidade de o senador Cleitinho (Republicanos) ser candidato. E Ronaldo
Caiado (PSD) vê seu partido com a máquina estadual nas mãos, mas não tem ainda
garantia de que o governador Mateus Simões será seu cabo eleitoral.
Simões deixou no fim do ano o partido Novo
e entrou no PSD, em uma articulação que envolveu o então governador, Romeu Zema
(Novo). Às vésperas do prazo de desincompatibilização, Zema deixou a
administração estadual anunciando que disputará o Planalto. Mas é cobiçado para
a vice tanto de Caiado como de Flávio Bolsonaro (PL). Apesar do desempenho
tímido em outros Estados, pode ter grande influência sobre o eleitor local.
A fama dos políticos mineiros é antiga. Relata-se no livro
“Política em Minas”, de Paulo Roberto de Gouvêa Medina e editado pelo Senado,
que José Bonifácio teria sido um dos pioneiros na construção dessa imagem. Na
primeira viagem de Dom Pedro I ao interior do país, na qual o monarca tentaria
em 1822 se aproximar dos governantes da capitania e conquistar a confiança do
povo, o patriarca da Independência teria alertado o imperador para que não
confiasse nos mineiros por serem eles espertos e ardilosos.
A fama foi crescendo ao longo do tempo, ao passo que as
lideranças mineiras foram colecionando histórias e frases que fundamentam o que
os mais puristas consideram ser uma “caricatura” injusta. Tancredo Neves, por
exemplo, dizia: “o único prazo que o político respeita é o prazo legal”.
Foi exatamente o que Pacheco fez. Pressionado a se
candidatar ao governo mineiro pelo presidente Lula, mudou do PSD para o PSB no
início de abril, na data limite estabelecida pela legislação, em um evento que
teve a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin. Porém, frustrou as
expectativas no PT ao não confirmar se vai mesmo disputar o governo mineiro.
Um aliado assegura que ele já está estudando a difícil
situação fiscal de Minas, em um sinal de que, embora preferisse ser indicado
para o Supremo Tribunal Federal (STF), em breve irá destravar oficialmente os
preparativos de sua campanha. Em contrapartida, um adversário provoca. Diz que,
na verdade, Pacheco quer ser candidato a derrotado. Em outras palavras, irá
trabalhar para valer em prol da vitória de Lula, mas na realidade estaria
visando a chance de ser indicado para o STF em um eventual quarto mandato do
petista.
Assim, caberá à ex-prefeita de Contagem Marília Campos,
pré-candidata ao Senado pelo PT de Minas, puxar a campanha de Lula nos próximos
meses. Ela planeja visitar os cem maiores municípios mineiros e obras federais,
defendendo o fim da polarização e o municipalismo - bandeira forte em Minas
Gerais, em um contexto no qual a maioria das prefeituras mineiras depende de
recursos estaduais ou da União.
Essa bandeira também evidencia o poder de influência à
disposição do atual governador, Mateus Simões, e de Zema. Para aliados de
Caiado, portanto, o cenário ideal é que Zema aceite ser seu vice ou concorra ao
Senado e o apoie. Contudo, seguindo a tradição mineira, ele não dá sinal de
eventual desistência de sua pré-candidatura à Presidência.
No PL, também não escondem o fato de que o palanque de Minas
Gerais ainda é um grande nó a desatar. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão
de Flávio, está em embate direto com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
Liderança em ascensão no Estado e com projeção nacional crescente, Nikolas
tenta, por sua vez, evitar que o partido abrace a pré-candidatura ao Palácio
Tiradentes do senador Cleitinho.
O motivo é simples. Em 2030, quando Nikolas tiver idade
suficiente para candidatar-se ao Senado, pode ser que os dois disputem a única
cadeira que estará em jogo na Casa. Diante do impasse, o PL filiou Flávio
Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), para
ter uma carta na manga.
Uns dizem que Minas costuma ditar os rumos das eleições
presidenciais. Outros argumentam que, na verdade, é o inverso: o Estado reflete
o que está ocorrendo no Brasil, em razão da sua heterogeneidade geográfica e
demográfica. Por isso, os sinais emitidos pelos eleitores mineiros devem servir
de guia para os estrategistas.
O fato é que nas últimas eleições presidenciais todos os
candidatos que venceram em Minas acabaram levando a disputa. Em 2022, Lula
obteve no Estado 50,20% dos votos válidos contra 49,80% de Jair Bolsonaro (PL).
Neste ano, a disputa será mais uma vez acirrada e está
aberta. O que se pode ter certeza, contudo, é que na política mineira existe
outra máxima: a pecha de traidor costuma ser imperdoável. Ela vem desde os
tempos da Inconfidência, quando Joaquim Silvério dos Reis delatou os
ex-companheiros e abandonou-os à própria sorte. Ele teve dívidas perdoadas pela
Coroa, mas enfrentou a revolta da população, solidária aos condenados. Acabou
tendo que mudar de Estado.

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