Livro resenhado: MAESTRINI, Alexandre Müller Hill. Nossas
riquezas pretas: biografias afro-juizforanas. Juiz de Fora (MG). EDITAR.
2025.
Disponível gratuitamente aqui:
https://institutoautobahn.com.br/index.php/nossas-riquezas-pretas-jf/
Pode-se dizer, então, que desde o seu parecer
antiprotecionista, Rebouças começara a aproximar a Alemanha do seu quadro de
referência, concedendo-lhe uma densidade ética comparável à da aristocrática
Inglaterra e, por via de consequência, ao yankismo que preconizava para o
Brasil. Rebouças mudaria também a sua definição de Estado: a qualificação do
Estado como “gendarme” das “classes feudais” seria alterada pelo reconhecimento
da multiplicidade de interesses abrigados sob o Estado modernizador do século
XIX. (…)
Maria Alice Rezende de Carvalho – O Quinto Século:
André Rebouças e a Construção do Brasil, p. 207.
As abordagens sobre o racismo na sociedade
brasileira lança luz sobre os caminhos em que a democracia foi construída em
nosso país após a proclamação da República. O debate da escravidão do
pensamento político brasileiro se iniciou há muitos anos atrás a partir dos
escritos de Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e André Rebouças (1838 – 1898).
Segundo Nabuco, a escravidão era um grande mal para a sociedade brasileira que
deveria, em seguida, se democratizar com um programa político de
descentralização. Por outro lado, Rebouças foi mais ousado, numa perspectiva
democrática e social ao defender uma distribuição de terras aos ex-escravos
como possibilidade de elevação do liberto a cidadão. Por fim, foi Clovis Moura
(1925 – 2003) que em tempos republicanos se preocupou com a inclusão dos negros
na história de nosso povo, o que lhe conferiu um pioneirismo pouco reconhecido
e compreendido nas novas gerações das lideranças do movimento negro.
Então, as pequenas memórias e autobiografias de pessoas
simples, com o auxílio da metodologia da História Oral, são oportunidades para
se verificar como o legado da conciliação e reforma, nos dizeres de José
Honório Rodrigues, se fizeram presente na construção da consciência de uma
negritude no qual as interpretações de György Lukács (1885 – 1971) teriam
contribuído. Tamanha é a envergadura dessa nossa hipótese diante a publicação
do livro Nossas Riquezas Pretas – Biografias Afro-juizforanas, de
autoria de Alexandre Müller Hill Maestrini, que pelos caminhos da “fortuna” se
aproxima da tradição autobiográfica de Joaquim Nabuco em Minha
Formação (1900) e André Rebouças em seus Diários (1863
– 1889). A memória como uma oportunidade de revelação de uma consciência mais
do que individual sobre um grande problema social.
As linhas do acaso de nossa historia política fizeram
convergir o centenário da abolição da escravidão com o ano da “Carta Cidadã” de
1988. Esse livro de fácil leitura faz a apresentação de 54 (cinquenta e quatro)
entrevistas de moradores de Juiz de Fora, os quais viveram os dilemas do
preconceito racial desde os tempos da Ditadura Militar (1964 – 1985) até os
tempos da chamada transição democratizadora da sociedade brasileira (1985 –
2002). Esses registros estão livres de teorias mas repletos de emoções de vidas
e lembranças. Além disso, eles nos chamam a atenção para uma cidade de grande
importância econômica, política e social em Minas Gerais e suas conexões com
outras municipalidades mineiras, como se o tema da democratização social pela
via da educação e leitura fosse um ponto comum a esses protagonistas de um
transformismo na sociedade, onde o grande desafio seria a reinvenção na
política do programa reformista de André Rebouças.
O leitor terá a oportunidade de se reconhecer nas biografias
uma vez que faz parte de uma qualidade das raízes de nossa luta democrática,
que está precisando de novos quadros políticos para fazer valer o reformismo
social. Um livro que poderia se reproduzir em tantos outros municípios de Minas
Gerais, porque o tema democrático está sob forte pressão nesse estado da
federação. As forças do autoritarismo inorgânico e ideologizado são um problema
que questiona o legado da mineirice na política nacional. Temos um
“livro-semente” para que tenhamos condições de desvendar os silêncios sobre a
negritude até de Antônio Francisco Lisboa, que foi biografado pela primeira vez
em 1858.
*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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