São Paulo desfigura Lei Cidade Limpa em pastiche da Times
Square
Vinte anos depois, maior cidade do país arma retrocesso
no combate à poluição visual
Aprovada em 2006, a Lei Cidade Limpa impôs um freio à
poluição visual na maior cidade do país. A norma devolveu aos cidadãos a
paisagem sequestrada pela publicidade. Em vez de celebrar seus 20 anos, as
autoridades de São Paulo querem desfigurá-la.
Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas divulgou
um vídeo em que gigantescos painéis de LED cobrem os prédios da Avenida São
João. “Por enquanto, as imagens aqui são de inteligência artificial. Mas daqui
a uns dias, elas vão ser realidade”, anunciou. O prefeito Ricardo Nunes também
mostra entusiasmo com a ideia.
O projeto tem sido chamado de Times Square
paulistana, uma imitação jeca do famoso largo de Nova York. Na verdade,
trata-se de uma cópia
da cópia. O primeiro pastiche foi inaugurado em Balneário Camboriú, que já
se apresentou como a Dubai brasileira.
O plano de São Paulo se destaca pela megalomania. Os telões
poderão cobrir 70% da fachada de edifícios históricos. Terão até 25 metros de
altura, o suficiente para esconder oito andares das construções. A desculpa,
como sempre, é revitalizar o Centro e atrair investimentos.
Há controvérsias. O Instituto dos Arquitetos do Brasil
apontou “risco iminente de desfiguração da cidade e de reintrodução massiva da
poluição visual”. O urbanista Mauro Calliari observou que a contrapartida aos
cofres públicos, de R$ 2 milhões por ano, é “quase ofensiva de tão pequena”.
Em março, a Companhia de Engenharia de Tráfego avisou que os
painéis podem provocar “sérios problemas de segurança viária”. O estudo
enfatizou que o excesso de propaganda luminosa ofusca a visão de motoristas e
aumenta o índice de acidentes. Apesar de tudo, o projeto foi aprovado
pelos conselhos municipais que deveriam proteger o patrimônio e a
paisagem urbana.
No Rio, uma lei inspirada na Cidade Limpa chegou a vigorar
por seis anos. Foi
revogada em 2019, quando os vereadores autorizaram a volta
dos anúncios gigantes em fachadas e laterais de prédios. Hoje a
prefeitura também dá mau exemplo ao emporcalhar as orlas da praia e da Lagoa
com placas publicitárias, a pretexto de divulgar eventos.

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