Marx, Keynes e Schumpeter contra as mazelas do pensamento
único em economia
Os três mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, protegiam a
rainha Ana da Áustria contra as intrigas políticas do cardeal Richelieu. Na
nossa trilogia, Athos (Marx), Porthos (Keynes), faltava Aramis, o grande
economista austríaco Joseph Alois Schumpeter. Cada um, à sua maneira de pensar,
forma o trio que combate o pensamento único em economia e procura observar e
explicar a economia como um sistema. Em 1942, Schumpeter disse: “A destruição
criativa é o fato essencial do capitalismo”. Ele foi ministro das Finanças
da Áustria.
Agradecemos ao Lorde Keynes, pelo contato
de Schumpeter, que nos concedeu esta entrevista em Boston, em sua sala em
Harvard, onde leciona Economia e Econometria. Em 1911, publica uma de suas
maiores obras, Teoria do Desenvolvimento Econômico; em 1939, Ciclos Econômicos;
e, em 1942, Capitalismo, Socialismo e Democracia.
Nós: Muito obrigado por nos receber aqui em Harvard. Na
sua opinião, com o predomínio de uma análise econômica hermética na modelagem,
por que esse domínio dos economistas convencionais?
Schumpeter: Isto é assim porque todo conhecimento e todo hábito,
uma vez adquiridos, incorporam-se tão firmemente em nós como um terrapleno
ferroviário na terra. Não requerem ser continuamente renovados nem reproduzidos
conscientemente, mas afundam nos estratos do subconsciente.
Nós: Se permite, uma curiosidade, um monte de cursos de
inovação se apropriaram do conceito de destruição criadora.
Schumpeter: O novo não nasce do velho, mas aparece ao lado deste e
o elimina na concorrência… O ideal tecnológico, que não leva em conta as
condições econômicas, é modificado. A lógica econômica prevalece sobre a
tecnológica… O que já foi feito tem a realidade aguda de todas as coisas que
vimos e experimentamos. O novo é apenas o fruto de nossa imaginação. Levar a
cabo um novo plano e agir de acordo com um plano habitual são coisas tão
diferentes quanto construir uma estrada e caminhar por ela.
Nós: Qual a sua opinião a respeito do crédito?
Schumpeter: A criação de dinheiro pelos bancos, ao estabelecer
direitos contra si próprios, é descrita por Adam Smith e, na verdade, por
autores ainda mais antigos, de forma completamente livre de erros vulgares,
tornou-se um lugar-comum hoje em dia; com o que me apresso a acrescentar que,
para os nossos propósitos, tanto faz se considera a expressão “criação de
dinheiro” teoricamente correta ou não. Nossas deduções são completamente
independentes dos pontos particulares de qualquer teoria monetária.
Schumpeter: Permite completar? A falta de
entendimento de teoria monetária é notória na formação dos economistas.
Nós: Concordamos! Fique à vontade.
Schumpeter: Além disso, quem negaria o fato de
que, em alguns países, talvez 3/4 dos depósitos bancários são simplesmente
créditos, e que em geral o homem de negócios primeiro torna-se devedor do banco
para tornar-se depois seu credor, que primeiro “toma emprestado” e uno actu
“deposita”, para não falar do fato de que apenas uma fração desprezível de
todas as transações é e pode ser efetuada pelo dinheiro, em sentido estrito?
Nós: Poderia explicar o papel fundamental do mercado
monetário numa economia capitalista?
Schumpeter: O mercado monetário é sempre, por assim dizer, o
quartel-general do sistema capitalista, do qual partem as ordens para as suas
divisões individuais, e o que ali é debatido e decidido é sempre em essência o
estabelecimento de planos para o desenvolvimento posterior. Todas as espécies
de requisitos de crédito vêm a esse mercado; nele, todas as espécies de
projetos econômicos travam relação umas com as outras e lutam por sua
realização; todas as espécies de poder de compra, saldos de toda sorte, fluem
para ele, a fim de ser vendidas. Isso dá origem a um bom número de operações de
arbitragem e de manobras de intermediação que podem com facilidade esconder o
fundamental.
Parte da mídia e do governo vê a dívida e os juros como uma
disputa entre bandidos e mocinhos
Nós: O que tem a dizer desse predomínio da separação em
dois blocos, o lado real e o lado monetário da economia? Como transformar
imediatamente seus direitos em “dinheiro”? Então esses produtos servem de
“base”, o da demanda e o da oferta?
Schumpeter: Posso me estender nessa questão importante?
Nós: Claro.
Schumpeter: O tema do livro (Teoria do Desenvolvimento Econômico)
constitui um todo interligado. Isso não se deve a nenhum plano preconcebido.
Quando comecei a trabalhar sobre as teorias do juro e do ciclo, há quase um
quarto de século, não suspeitava que esses assuntos se ligariam uns aos outros
e provariam estar intimamente relacionados aos lucros empresariais, ao
dinheiro, ao crédito e semelhantes, da maneira precisa que me conduziu ao
desenrolar do raciocínio. E completo: o produtor, depois de concluir a sua
produção e vender o seu produto, saca contra seus fregueses, para transformar
imediatamente seus direitos em “dinheiro”.
Nós: Qual o papel do banqueiro na economia capitalista?
Boa parte da mídia e do governo vê o crédito, a dívida e os juros como uma
questão moral. Levando a discussão entre bandidos e mocinhos.
Schumpeter: Portanto, o banqueiro não é primariamente um
intermediário da mercadoria “poder de compra”, mas um produtor dessa
mercadoria. Contudo, como toda poupança e fundos de reserva hoje em dia afluem
geralmente para ele e nele se concentra a demanda de poder livre de compra,
quer já exista, quer tenha de ser criado, ele substitui os capitalistas
privados ou tornou-se o seu agente; tornou-se ele mesmo o capitalista par
excellence. O juro é um prêmio ao poder de compra presente por conta do poder
de compra futuro… Permite uma fofoca, que ilustra bem a não compreensão por boa
parte dos economistas sobre moeda? Contei certa vez a um grupo de economistas
japoneses que Keynes me dissera que não havia em todo o mundo mais que cinco
pessoas que entendiam a teoria monetária.
Nós: Hoje tem alguma mensagem aos futuros economistas
presos nas algemas da ciência triste?
Schumpeter: Quero deixar perfeitamente claro que, se estivesse
começando a trabalhar com economia e fosse informado de que poderia estudar
apenas uma das três – teoria, estatística e história –, podendo escolher
qualquer uma, voltar-me-ia para a história econômica. Os erros fundamentais
cometidos atualmente na análise econômica devem-se, em sua maioria, mais
frequentemente, à falta de experiência histórica do que a qualquer outra
carência do preparo intelectual do economista. Tanto os economistas quanto os
publicistas se deixaram levar pelos fragmentos da realidade que porventura
conseguiram aprender…, mas uma análise tão fragmentária não permite tirar
nenhuma conclusão válida acerca da realidade capitalista como um todo.
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15
de abril de 2026.

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