O governo entra na corrida eleitoral com emprego elevado
e programas sociais de grande alcance, mas isso não se traduz em percepção de
bem-estar
O cessar fogo no estreito de Ormuz e as negociações entre
Estados Unidos e Irã, que ainda não chegaram a um acordo, produziram um alívio
no mercado internacional de energia, com reflexos diretos no Brasil. A queda do
barril do tipo Brent — que havia ultrapassado US$ 118 no auge da crise — para a
casa dos US$ 94 abriu espaço para uma redução, ainda que modesta, no preço dos
combustíveis. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel recuou
0,2%, para R$ 7,43, interrompendo uma trajetória de alta que pressionava
fortemente a inflação. Trata-se de uma boa notícia para o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, porque o diesel é o principal vetor de transmissão de
custos na economia, com impacto no transporte, nos alimentos e nos serviços.
Entretanto, isso não altera o cenário
adverso enfrentado pelo governo, que vive um paradoxo: indicadores
macroeconômicos positivos convivem com uma percepção social negativa. A taxa de
desemprego está em 5,8%, uma das menores da série histórica, e a renda média
supera R$ 3.600. Ainda assim, 64% dos brasileiros afirmam ter perdido poder de
compra, enquanto 80,4% das famílias estão endividadas — o maior nível já
registrado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Dados do Banco Central
indicam que quase metade da renda está comprometida com dívidas e o crédito
segue caro. Os juros do rotativo do cartão ultrapassam 435% ao ano.
Característica histórica do lulismo, a chamada “economia do
afeto”, na feliz definição do historiador Alberto Aggio (A construção da
democracia no Brasil, 1985-2025, Editora AnnaBlume/Fundação Astrojildo
Pereira), já não é suficiente para alavancar os índices de aprovação de Lula.
Programas como o Bolsa Família, o Auxílio Gás e o Farmácia Popular continuam
sendo fundamentais para mitigar a pobreza e reduzir desigualdades. Estudos do
Ipea apontam queda da extrema pobreza de 25% para menos de 5% nas últimas décadas.
No entanto, seu impacto marginal sobre o bem-estar imediato das famílias está
sendo amortecido pelo peso do endividamento e pelo custo de vida elevado,
especialmente dos alimentos, cuja inflação saltou de 0,09% para 1,10% em março.
A tentativa de reação do governo por meio de um novo
programa de renegociação de dívidas, a cargo do novo ministro da Fazenda, Dario
Durigan, pode produzir alívio de curto prazo, com descontos de até 80%.
Contudo, economistas apontam que é uma solução paliativa diante de um quadro
estrutural de juros elevados, informalidade no mercado de trabalho e baixa
renda média. A experiência recente do Desenrola Brasil promoveu melhora
momentânea do crédito, porém, sem alteração duradoura do ciclo de inadimplência.
É nesse ponto que a oposição encontra terreno fértil. O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) explora a desconexão entre os indicadores
oficiais e a percepção cotidiana da população, de encarecimento de itens
básicos. Seu discurso é pautado pelo marketing eleitoral: “o brasileiro não
vive de índice”. Já o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) aponta o
problema estrutural da política econômica do governo. ao associar inflação,
endividamento e perda de poder de compra à necessidade de promover crescimento
sustentável.
Projeto de nação
Segundo a pesquisa Genial/Quaest, há uma forte correlação
entre endividamento, custo de vida e sensação de empobrecimento, agravada pelo
avanço das apostas online: 46% dos inadimplentes afirmam apostar regularmente,
muitos em busca de renda extra ou solução para dívidas. Muito mais do que um
problema econômico, esse quadro de vulnerabilidade social escapa ao alcance e
neutraliza as políticas tradicionais de transferência de renda.
A eleição de 2026 propriamente dita não será pautada por
indicadores macroeconômicos, mas pelas dificuldades cotidianas das famílias, a
chamada “vida banal”, que muitas vezes não é levada em conta nas políticas
públicas, capturadas por grandes interesses privados. O diferencial de Lula na
percepção dessa questão sempre foi a sua experiência vivida no âmbito familiar
e sindical, mas isso é passado. No terceiro mandato como presidente da
República, diria o Dadá Maravilha, não basta identificar “a problemática”, Lula
precisa apresentar aos eleitores a “solucionática”.
Assim, o governo entra na corrida eleitoral com emprego
elevado, programas sociais de grande alcance social e uma eventual
estabilização dos preços dos combustíveis, mas isso não se traduz em percepção
de bem-estar. Por outro lado, com a pulverização dos investimentos por
Orçamento da União pelas emendas parlamentares, predominantemente de cunho
clientelistas, também não há grandes realizações estruturantes para mostrar, a
exemplo de mandatos anteriores, como a transposição do rio São Francisco, a
reforma dos aeroportos e a exploração do pré-sal, que depois acabou ofuscada
pelo escândalo do “Petrolão”.
Não tem jeito, para buscar a reeleição, Luiz Inácio Lula da
Silva precisa ir além da “economia do afeto”. Isso implica apresentar propostas
novas, capazes de enfrentar o endividamento estrutural, reduzir o custo do
crédito e melhorar a renda disponível. Sair do discurso “economicista” e
politizar o debate em torno da defesa da democracia, de reformas estruturantes
e de um projeto de nação que faça o brasileiro sonhar. Além disso, sair do
isolamento e ampliar alianças ao centro, especialmente nas disputas pelos
governos estaduais e por mandatos no Congresso Nacional, com ênfase no Senado.
Sem essa recomposição política, os atuais ganhos econômicos podem ser
insuficientes para sustentar um novo mandato.

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