quinta-feira, 30 de abril de 2026

PODERÁ O STF TER UM MINISTRO ATEU ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Messias foi crucificado por briga entre o Planalto e o Senado

Suas afirmações sobre religião e STF parecem contraditórias; e são

Jorge Messias é um jurista competente. Foi um erro o Senado tê-lo rejeitado, numa derrota que tem o peso histórico de 132 anos.

Messias foi crucificado na disputa entre o presidente do Senado e o presidente da República, como uma demonstração de força de Alcolumbre de que, um, a eleição já começou e ela não está ganha e, dois, o impeachment dos ministros do STF –que requer apoio de 54 senadores– não está fora de questão.

A derrota de Messias é menos sobre Messias e mais sobre as eleições de 2026 e o ego de Alcolumbre. Se os senadores pensassem que Lula teria enorme vantagem nas eleições (o que não tem), e se Alcolunbre pensasse que bolsonaristas não seriam a principal força política do Senado em 2027 (devem ser), não valeria o desgaste. Acontece que nem a conduta de bom samaritano de Messias —colocando-se como terrivelmente evangélico e com dor de ofício pelas prisões do 8 de Janeiro– o salvou.

Falando em Messias, a sabatina trouxe à tona a questão de qual o papel da religião dos ministros do STF? Antes de ser rejeitado pelo plenário do Senado, Messias afirmou que "é possível interpretar a Constituição ‘com fé’, e não ‘pela fé’", que possui "respeito absoluto à laicidade", que "os princípios cristãos" o "acompanham" e que "há 40 anos" se vê como um "servo de Deus".

Se as afirmações de Messias sobre religião e STF parecem contraditórias entre si, é porque o são, intencionalmente: o candidato não almejou em ser coerente, mas, sim, em ser palatável a todos. Falhou.

Três reivindicações aqui se misturam. Primeiro, a demanda por representatividade: evangélicos, como cidadãos, podem ocupar postos de poder e já o fazem. Segundo, a demanda por liberdade de religião: evangélicos possuem o direito a exercer sua fé. Terceiro, a demanda por domínio: religiosos não podem usar de seu cargo público para impor princípios de sua fé àqueles que não compartilham de sua crença.

Poderá o STF ter um ministro ateu? Se essa pergunta soa tão absurda no dia de hoje, é porque não se sabe ainda até onde vai a extrema direita teocrática para impor o seu projeto.

Hoje soubemos que está disposta a jogar um século de história pela janela.

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