O jogo dos próximos anos exige um Estado forte, não
mastodôntico, que consiga navegar na nova realidade
O mundo dessa segunda metade da década de 2020 pode ser
qualquer coisa, mas jamais poderemos dizer que é um palco para amadores. De
fato, esta década está se caracterizando por jogar por terra a velha forma de
produzir e de viver. Vamos tentar olhar três dimensões deste novo mundo.
Primeiro, algo que já estava no radar há alguns anos, mas só
nesta década ganhou cores mais marcantes: a transição climática. Emissões
lançadas por uma economia afetam, indistintamente, todas as demais. Por isso,
esforços isolados, ainda que relevantes, são insuficientes diante da escala da
questão. A redução conjunta de emissões exige metas compatíveis, mecanismos de
monitoramento confiáveis e compromissos estáveis de longo prazo, para que a
ação climática não seja comprometida por condições assimétricas entre países ou
pela transferência de atividades intensivas em carbono para locais onde as
exigências sejam menores.
Os mecanismos de redução das emissões de
carbono têm por objetivo alterar os parâmetros de custo da produção, de modo a
incorporar aos processos econômicos os efeitos ambientais. Ao precificar o
carbono e incentivar tecnologias limpas, esses mecanismos afetam decisões de
investimento, produção e consumo.
Efeitos positivos só podem ser conseguidos se as ações, nos
mais diversos países, forem realizadas de forma coordenada internacionalmente.
Mas é indispensável distribuir custos e responsabilidades considerando as
diferenças de renda, estruturas produtivas e capacidades tecnológicas. Isso
reforça a necessidade de cooperação financeira, difusão de conhecimento
tecnológico e alinhamento regulatório. A transição climática não é uma soma de
políticas nacionais. Ao contrário, é ação coletiva, marcada por previsibilidade
institucional e compromisso compartilhado com a redução global das emissões.
A segunda dimensão é a revolução que a inteligência
artificial (IA), que impõe desafios de grande magnitude, dado que sua adoção
tende a ser desigual entre setores, empresas e regiões. Em ambientes produtivos
marcados por baixa produtividade média, forte heterogeneidade empresarial e
grande presença de pequenas firmas, a IA pode ampliar a distância entre
segmentos mais capitalizados e aqueles com limitada capacidade de investir em
tecnologia, dados e qualificação. A introdução das novas tecnologias cruzará segmentos
do setor produtivo, desconstruindo o passado e instaurando uma nova realidade.
No mercado de trabalho, a IA tende a alterar a forma como
ele é organizado, remunerado e distribuído setorialmente. Ocupações
intermediárias, rotineiras ou intensivas em processamento de informação podem
sofrer forte reconfiguração, enquanto cresce a demanda por trabalhadores com
maior capacidade analítica, domínio tecnológico e capacidade de adaptação
contínua aos novos ambientes. O risco é que a IA aumente a produtividade sem
gerar, na mesma proporção, empregos de qualidade. Por isso, a nova configuração
exige políticas de formação, requalificação profissional e fortalecimento da
capacidade nacional de absorver tecnologia e ter um papel ativo na construção
dos novos marcos produtivos.
A terceira dimensão é o declínio da posição americana na
configuração geopolítica. A aventura tarifária de Trump já havia causado
estragos na posição de centralidade no contexto do comércio mundial. Os países
de médio desenvolvimento já buscam comerciar entre si. Segundo a The Economist,
entre maio e o fim de 2025, o comércio entre a GrãBretanha, o Canadá, a União
Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e a Suíça aumentou 12% em comparação com os
mesmos meses do ano anterior, mesmo com a queda de 6% nas exportações para os
Estados Unidos. A guerra ampliou a percepção de fragilização da posição
dominante para o campo militar, na diplomacia e no mundo financeiro.
Os próximos anos mostrarão um reposicionamento de todas as
nações. Repensar as fontes energéticas para garantir suprimento nacional será
um ponto de honra. Redesenhar o comércio, especialmente o de minerais e outros
insumos da produção, numa ótica de segurança do abastecimento, será outro. Mas
é nos fluxos financeiros que novas lógicas virão à luz de forma mais intensa. A
desagregação de mercados ocasionada pela guerra abriu caminho para o comércio
em outras moedas. A degradação da posição de poder americana acionou os
mecanismos de proteção contra a concentração de posições em ativos denominados
na moeda americana.
De fato, 2026 é o primeiro ano de uma nova configuração da
economia e da sociedade. E tenho que dizer aos que acreditam que o alinhamento
automático aos Estados Unidos ou às soluções do liberalismo “anti-Estado”
produzirão a catástrofe do desenvolvimento brasileiro. O jogo dos próximos anos
exige um Estado forte, não mastodôntico, que consiga navegar na nova realidade
tomando decisões e compondo alianças que preservem ao País a capacidade de
manter mínima coesão social frente a mudanças que irão do trabalho no mundo da
IA à transição climática, passando pelo comércio e pelo sistema financeiro.

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