quinta-feira, 30 de abril de 2026

UMA NOITE DE DERROTAS GRAVES DE LULA, NA POLÍTICA E ECONOMIA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Enterro da nomeação de Messias também anima forças da direita que querem dominar o STF

Imprevidência e conversa velha na política e na economia prejudicam projeto Lula 4

atropelamento do governo no Senado foi tamanho e tão cheio de significados que o destino cinzento das taxas de juros no Brasil ficou parecendo um assunto acadêmico ou menor. Se alguém ainda se lembra, nesta quarta (29) o Banco Central diminuiu a Selic de 14,75% para 14,5%, mas deu indícios de que o gato dos cortes de juros está subindo no telhado.

Taxa de juros não é assunto acadêmico ou menor, claro, embora seja conversa muito mais tediosa. Os dois assuntos, porém, são derrotas sérias do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sinais de mais riscos, político-institucionais e econômicos.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), mostrou quem manda no cercado político-politiqueiro. Mostrou de modo terminal, sob Lula 3, quão pequeno era o poder de articulação e compreensão políticas do governismo. Difícil saber que coisa o presidente vai poder aprovar no Congresso se não estender o tapete da humilhação para Alcolumbre. Se tentar retaliação, como prometiam petistas na noite de quarta, talvez não consigam aprovar nem presente eleitoral de agrado dos senadores ou ouro para o Amapá.

Além dos problemas políticos lulianos, a derrota enorme da nomeação de Jorge Messias para o Supremo é sinal de que turbulências maiores virão. Está certo que a rejeição de Messias é, em primeiro lugar, uma rasteira no governo Lula; é vingança de Alcolumbre; é reação de quem tem medo de investigação da PF, de inquérito de Flávio Dino; de quem quer emendas. Mas não apenas.

Trata-se de demonstração de que é possível reunir força política suficiente para bulir com nomes do Supremo. No momento, é força bastante para fazer o adversário eleitoral passar o vexame histórico de não conseguir nomear um ministro. Mais adiante, pode ser força para conter o STF ou decapitar ministros, por bons e maus motivos, com boas ou más intenções (a maioria má).

Bolsonaristas e a direita dura ou extrema em geral fazem campanha para eleger bancada dominante no Senado. O objetivo sabido é o de ter números para votar o impeachment de ministros do STF ou de formar uma barreira contra qualquer indicação que não seja do agrado dessa turma. O sacrifício de Messias vai animar esse projeto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a Bolsonaro Segundo, dizia exatamente isso na noite de quarta, depois da votação que enterrou Jorge Messias.

Tal situação deve-se em parte à imprevidência e à inabilidade políticas de Lula 3. Além da desarticulação no Congresso, o governo esqueceu que havia voltado ao poder com apoio de centristas minoritários, mas com certa relevância social e política. Dar uns ministérios e cargos para gente desgarrada do centrão não resolveu tais problemas. Agora, centristas mais vocais e influentes ou esse bloco minoritário de eleitores está entre muito decepcionado e fulo com Lula. Para piorar, o governo não teve nada dizer de novo ao eleitorado.

A desconexão com a realidade, soberba, resultou em outra imprevidência. A má administração da política macroeconômica, responsabilidade de Lula, acabou por resultar em taxas de juros mais altas. A guerra vai impedir que mesmo a baixa antes prevista da Selic venha a ocorrer. Era pouca, mas se quebrou. O comunicado do Banco Central desta quarta indica que o caldo azeda. As projeções e negócios do mercado indicam taxas altas a perder de vista. Foi uma noite de derrotas para o lulismo.

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