Vitória contra escala 6x1 mostra que proximidade da
eleição faz milagres
Proposta tirou esquerda da inércia, emparedou Centrão e
deixou bolsonarismo sem saída
A proximidade da eleição faz milagres. Na quarta-feira, a
Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40
horas semanais. Meses atrás, pouca gente em Brasília acreditava que a proposta
iria adiante. Não só foi, como passou com folga: teve apoio de 95% dos
deputados presentes.
O placar de 472 a 22 pode dar a impressão de que os
parlamentares fizeram uma autocrítica e decidiram se irmanar em defesa da
classe trabalhadora. Não foi bem isso. A derrubada da 6x1 é resultado de uma
articulação rara, que tirou a esquerda da inércia, emparedou o Centrão e deixou
o bolsonarismo sem saída.
O primeiro passo foi dado nas redes, onde
um balconista de farmácia viralizou ao desabafar contra a rotina exaustiva.
Rick Azevedo se elegeu vereador no Rio pelo PSOL e ofereceu uma nova bandeira
ao campo progressista. A causa ganhou tração. Em março, o Datafolha informou
que 71% dos brasileiros defendiam os dois dias de descanso semanal.
O Planalto aproveitou o embalo e anunciou o envio de um
projeto com urgência constitucional, que precisaria ser votado em 45 dias. Sob
pressão, o deputado Hugo Motta resolveu pautar as propostas de redução de
jornada que já adormeciam em sua gaveta. Pensava na própria reeleição e no
risco de ver seu grupo ser carimbado, mais uma vez, com a pecha de “inimigo do
povo”.
A guinada do Centrão desnorteou os bolsonaristas. Com medo
da derrota, eles passaram a bater cabeça em público. Tentaram atrasar a
votação, propuseram uma transição de dez anos e, na última hora, lançaram o
factoide da escala 4x3.
Nada colou, e parlamentares que demonizavam a proposta se
viram premidos a endossá-la. Num discurso inusitado, Nikolas Ferreira, do PL,
declarou voto a favor e vaticinou que o fim da 6x1 provocaria demissões em
massa. “Esse dia vai ser maravilhoso”, acrescentou, sem corar. Em 2022, o jovem
bolsonarista foi premiado por 1,47 milhão de mineiros com a maior votação do
país.
Deputados que se mantiveram fiéis aos lobbies empresariais
acusaram colegas da direita de traição. “São todos boca de mousse, não têm
coragem de dizer não”, esbravejou Gilson Marques, líder do Novo. “Há muita
gente que defende uma coisa no bastidor, mas na hora de colocar a digital não
tem coragem”, reforçou Kim Kataguiri, do Missão.
Quando Motta abriu a sessão, quase todos já sabiam que a
proposta seria aprovada com facilidade. Quem se surpreendeu devia estar
desatento aos sinais emitidos por figuras como o chefão do PL, Valdemar Costa
Neto. Em fevereiro, num jantar com grã-finos paulistas, o dono do partido de
Bolsonaro havia prometido bloquear qualquer tentativa de acabar com a 6x1.
“Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida
para isso”, assegurou, sob aplausos. Passados três meses, ele se rendeu ao
instinto de sobrevivência política. “Nós não podemos ser contra”, disse, na
segunda-feira. “Se nós não aprovarmos a 6x1, o Lula ganha a eleição”,
justificou-se.

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