Projeção de inflação do BC dá recado importante ao
sinalizar que não parece haver espaço para os juros caírem a 13% ao ano até o
fim de 2026, como previa o mercado
O grande desafio do Banco Central na política monetária será
conter a deterioração das expectativas de inflação de longo prazo. Ainda não
está claro, para participantes do mercado financeiro, como o Comitê de Política
Monetária (Copom) pretende fazer isso.
O comunicado da reunião da semana passada - que baixou a
taxa Selic de 14,75% para 14,5% ao ano - ficou no meio do caminho. Reconheceu
que o cenário piorou, deixando a inflação projetada mais longe da meta. Mas,
para alguns, faltou o Copom dizer claramente qual vai ser a reação da política
monetária.
Muito provavelmente, porém, a comunicação do BC não está
completa. Há pontas soltas no comunicado. Alguns especialistas do mercado
financeiro acham que elas podem ser mais bem esclarecidas com a divulgação,
amanhã, da ata do Copom.
O BC deu um recado importante ao sinalizar,
com sua projeção de inflação, que não parece haver espaço para os juros caírem
a 13% ao ano até o fim de 2026, como previa o mercado. Mas faltou dizer qual é
a dose de juro necessária. É pouco provável que o BC cite um percentual, mas
pode intensificar a retórica na direção de fazer o que for preciso para cumprir
a meta.
Ficou uma outra ponta solta no chamado balanço de riscos
para a inflação. O comitê não deu nenhum sinal de que, hoje, os riscos
negativos para a inflação já superam os positivos, contrariando as expectativas
de setores do mercado financeiro.
Mas as coisas não estão imóveis: o Copom mudou a sua
descrição de um dos principais riscos negativos, citando explicitamente a
possibilidade de a pressão inflacionária originada da guerra no Oriente Médio
ter efeitos mais prolongados nas expectativas.
Desde o começo do conflito, as expectativas de inflação para
2028 vêm piorando, passando de 3,5% para 3,61%. Uma parte da culpa cabe à
política fiscal e creditícia - com o governo colocando o pé no acelerador, o
controle da inflação pelo canal da atividade econômica ficava obstruído. Os
ataques ao BC da ala política também atrapalham. Mas, no fim das contas, a
deterioração das expectativas é um problema que diz respeito à credibilidade do
Banco Central.
Os membros do Copom, já há algum tempo, deram sinais de que
estão preocupados com isso. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, colocou o
foco nas expectativas de inflação de 2028. O diretor interino de Política
Econômica do BC, Paulo Picchetti, reconheceu não apenas que elas tinham
piorado, como que há uma tendência de deterioração adicional.
Em março, Galípolo disse que o BC precisava de tempo para
entender a situação. No encontro do Copom da semana passada, a tendência de
deterioração das expectativas já era um fato consumado.
O comunicado já escalou um pouco mais a retórica do Banco
Central. Antes do conflito, as projeções de inflação diziam que era possível
cortar os juros aos 12% ao ano esperados pelo mercado e, ainda assim, cumprir a
meta de inflação, de 3%. De lá para cá, o mercado reviu a sua expectativa para
a Selic no fim do ano para 13%, já incorporando a resposta que o BC deve dar ao
surto inflacionário causado pela guerra. O Copom, no comunicado, deu um recado
importante: se os juros caírem a 13% ao ano, a inflação fica em 3,5%, mais
distante da meta.
O mercado entendeu que, para combater os efeitos
inflacionários da guerra, a economia terá de operar com juros acima de 13% ao
ano. O que todos estão tentando entender é o quanto, na visão do BC, seria essa
taxa de juro necessária para fazer o serviço.
Alguns economistas estimam que a taxa tenha que ficar, na
verdade, em 14% ao ano, considerando que cada ponto percentual na taxa Selic
baixa a inflação em cerca de 0,3 ponto percentual. Outros, mais pessimistas,
acham que, na reunião da semana passada, já não havia espaço para o Copom
cortar a taxa Selic.
Com canais da política monetária entupidos pelas medidas
fiscais, o Banco Central tem que sobrecarregar os demais. Um deles é o câmbio,
que está respondendo bem aos juros altos. Outro canal vital são as expectativas
de inflação - e elas vão atuar na direção certa apenas se a dose de juro do BC
for suficientemente forte.
Mas parece pouco provável que o comitê vá sinalizar uma taxa
Selic específica num horizonte tão distante como o fim do ano, em meio a todas
as incertezas do seu cenário. Qualquer sinal pode ser confundido com promessa -
e parece arriscado se amarrar com uma estratégia num cenário ainda mutante.
O que o Copom pode dizer, porém, é que vai fazer o
necessário para cumprir a meta de inflação. Pode explicitar a sua função de
reação, ou seja, reafirmar que vai reagir da forma esperada conforme o cenário
evoluir.
O balanço de riscos para a inflação é um instrumento
importante nessa retórica. Em março o Copom discutiu torná-lo assimétrico.
Picchetti expressou sua visão pessoal na reunião do Fundo Monetário
Internacional (FMI) em Washington, de que os riscos já pendiam para o lado
negativo.
No comunicado da semana passada, não há nenhum sinal de que
ele tenha deixado de ser simétrico. Mas o Copom colocou maior foco nas
expectativas longas - num sinal de que esse pode ser um caminho que levaria a
uma política monetária mais dura.

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