A verdade é que eu também sou a favor, como o meu
bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros
de natureza social
Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com
perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e
revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:
— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de
trabalho de cinco dias?
Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes
sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas
as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na
verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que
passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.
No Japão, o uso do ensino pela televisão
visa, sobretudo, equalizar o nível de aprendizagem das classes. Assim, os
alunos que não acompanham o ritmo regular, apresentando algum atraso no
aprendizado, são matriculados em turmas que utilizam métodos visuais, de modo a
acelerarem o aprendizado e alcançarem o nível da classe da qual foram
retirados.
Na verdade, comecei a divagar e já me desviava da
curiosidade de meu bisneto, que percebeu minha esquiva ao não querer impor-lhe
uma posição. Ele insistiu:
— Meu bisavô, o senhor não respondeu à minha pergunta.
Diga-me se o senhor é contra ou a favor da diminuição do tempo de trabalho para
cinco dias.
Eu, então, repliquei.
— Pois bem, se você quer saber, não é para orientar-se, mas
para conhecer minha opinião. Então, me diga primeiro: qual é a sua?
Ele retrucou: — Eu sou a favor.
— Por quê?
— Porque é mais justo.
— O que é ser justo?
— Trabalhar menos — ele respondeu.
Vi, então, que sua opinião era simplista, sem entrar, em
razão da sua pouca idade, no âmago da questão.
A verdade é que eu também sou a favor, não só por motivos de
justiça, mas por outros de natureza social.
Essa discussão tomou conta do país. Mas devo confessar que o
debate realizado pelo Correio Braziliense foi o mais abrangente de todos: foram
bons e competentes os debatedores ao dissecar os prós e contras das posições. O
ministro Gilmar Mendes foi brilhante em suas conclusões de que "o desafio
está menos em escolher entre proteção social e dinamismo econômico e mais em
compatibilizar os dois setores".
Penso que o Projeto de Emenda Constitucional nº 221/19,
aprovado pela Câmara dos Deputados, demonstra a capacidade de articulação e o
prestígio do presidente Hugo Motta ao reduzir a resistência a apenas 19 votos
contrários. E o resultado mostra que as premissas do ministro Gilmar Mendes
foram plenamente recepcionadas, ou seja, o equilíbrio entre o social e o
econômico prevaleceu.
A proposta inicialmente buscava a redução da jornada de
trabalho para 36 horas semanais, mas avançou no Congresso como base para a
instituição da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de repouso
remunerado (fim da escala 6x1), alterando o ar. 7º, XIII e XV, da Constituição
Federal.
Nenhum assunto debatido recentemente teve tanta participação
da comunidade e da mídia, nem seminários com tamanha amplitude de debatedores,
quanto este.
Recordo que, quando comecei a implantar o sistema digital e
a internet no Senado Federal, falei que um dia o desenvolvimento da
informatização nos levaria de volta à democracia direta, aquela que, nos
primórdios do regime democrático, era o sistema praticado em Atenas.
O nosso grande historiador João Lisboa — que Capistrano de
Abreu, seu concorrente como escritor desse gênero literário, considerava o
melhor historiador do país e dono da melhor escrita — tem um livro, intitulado
Jornal de Timon, em que se dedica às eleições na Antiguidade. Nele, estuda os
diversos métodos eleitorais, desde o Palmômetro (Aplausômetro), aquele sistema
de aferição de resultados pela intensidade das palmas na praça pública, até
outras formas que buscavam a democracia direta. A internet, no futuro, fará
isso.
Mas, para responder ao meu bisneto Bruno, manifesto minha
opinião de que sou favorável à diminuição dos dias de trabalho, como já ocorre
em muitos países.
Assim, vou encerrar este artigo e gozar de um pouco de
preguiça que eu não conhecia durante toda a vida, mas de que agora desfruto em
minha velhice, porque ninguém é de ferro.
*José Sarney — ex-presidente da República,
escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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