As coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas vezes
permanecem presas a lógicas do passado. É hora de encarar a eleição de 2026
como o fenômeno novo que ela realmente é
A seis meses das eleições, é preciso compreender que o
pleito de 2026 não é apenas mais um capítulo na nossa cronologia democrática.
Embora possa parecer um processo rotineiro, o contexto atual é inédito. O mundo
político pós-pandemia não é o mesmo, apesar de insistirmos em olhá-lo como uma
continuação óbvia do passado. Isso é um fato para todo o mundo, e o Brasil não
é exceção. Para decifrar o que nos espera em outubro, proponho três pontos de
observação essenciais.
Em primeiro lugar, destaca-se a diversidade do campo
político. A ciência política descreveu, por muito tempo, a existência de uma
"direita envergonhada" no Brasil pós-redemocratização. Nos anos de
1990, poucos candidatos assumiam tal posição política, temendo a associação
imediata com o período iniciado em 1964. Éramos um país de esquerda e de um
vasto centro; a própria esquerda hoje deve olhar com nostalgia para a época em
que rotulava Fernando Henrique Cardoso — um social-democrata — como a face
da direita brasileira.
Hoje, essa direita não só perdeu a
vergonha, como se diversificou. Embora as pesquisas indiquem que Lula possa
sair na frente no primeiro turno, a margem estreita revela sintomas complexos.
No curto prazo, há uma fragmentação da oposição que favorece a dianteira
numérica do presidente; contudo, em um eventual segundo turno, a tendência é a
convergência majoritária desses votos em um único opositor. A longo prazo, o
cenário é ainda mais desafiador para a esquerda: enquanto esse campo não
apresenta um nome capaz de substituir Lula, a direita constrói quadros para
2026 e, com quase absoluta certeza, para 2030. A sucessão na esquerda ainda é
uma miragem no horizonte.
Em segundo lugar, assistimos ao fim da hegemonia do
"incumbente". Historicamente, quem detinha a caneta e a máquina
pública entrava na disputa com franco favoritismo. Essa regra está ruindo. No
mundo hiperconectado e veloz das redes sociais, a satisfação do eleitor é
volátil. A oposição consegue minar ganhos do governo com mais agilidade,
expondo problemas e apresentando alternativas com eficácia inédita. Ser o
detentor do cargo já não é a vantagem competitiva como era no passado.
Se, por um lado, essa competitividade é o sinal vital de uma
democracia saudável, por outro, ela gera uma lógica perigosa. Governos acuados
pela iminência da derrota podem adotar medidas desesperadas no último ano de
mandato. O ciclo de quatro anos tem se mostrado curto demais para o
planejamento de políticas de Estado perenes, empurrando o país para a
"política do varejo". Nesse cenário, parece ser mais do que nunca
importante a discussão sobre mandatos únicos e mais longos.
Por último, vemos um velho problema brasileiro ganhando
contornos ainda mais relevantes. Enquanto pelo menos uma parte da população já
se preocupa com as eleições presidenciais de outubro de 2026, praticamente não
se discute a eleição para o Senado (são duas vagas este ano!) e para as Câmaras
de deputados federais e estaduais. Isso pode ser mais do mesmo, porque já é
conhecido no Brasil como o eleitor não entende o sistema proporcional de lista
aberta e seus cálculos e não se importa com esses cargos, pois acredita que
estamos em um sistema presidencialista clássico.
O paradoxo é que o presidente da República tem cada vez
menos força. Na prática, vivemos um semipresidencialismo que urge ser debatido.
Nunca o Legislativo teve tanto protagonismo. Recentemente, derrubou vetos e
barrou indicação ao STF (algo praticamente inédito na história brasileira).
Claro que essas sempre foram atribuições do Congresso, mas agora os
parlamentares se sentem menos dependentes do Executivo e se tornam
protagonistas com mais frequência. Atualmente, vale mais ser um influente líder
de bancada do que um ministro de Estado, já que administra fatias vultosas do
Orçamento via emendas parlamentares (de todos os tipos). O Congresso hoje não
apenas legisla, mas "executa" políticas públicas diretamente nos
municípios e estados. Enquanto os líderes partidários já entenderam a
importância estratégica da eleição ao Senado, visando, inclusive, confrontar o
STF, a população segue focada exclusivamente no cargo majoritário. Um erro
ainda mais perigoso no contexto atual.
Em suma, as coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas
vezes permanecem presas a lógicas do passado. Temos agora uma direita
multifacetada — reacionária, conservadora ou liberal — que transcende o rótulo
de "bolsonarista". O governante perdeu seu conforto natural no
processo de reeleição, e o Legislativo saiu da sombra do Executivo. É hora de
encarar 2026 como o fenômeno novo que ele realmente é.
*Daniel A. de Azevedo — professor de geografia
política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

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