Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou
afrodescendente, logo ele não era assim tão inclusivo
Uma polêmica recente mostrou que há dois tipos de homem: os
tóxicos (violentos, abusadores, misóginos) e os mais tóxicos ainda (que se
reúnem para discutir masculinidade, paternidade, família, virtudes cristãs). Um
dos argumentos contra esse segundo tipo é que ele não pode usar o cristianismo
em sua cruzada conservadora, já que Jesus era de esquerda.
Muito adiante do seu tempo, o filho de Deus não teria mesmo
dificuldade para se encaixar em conceitos ideológicos nascidos quase 1.800 anos
depois de sua morte. Mas há controvérsias. Jesus multiplicou pães e peixes,
transformou água em vinho — logo, era um empreendedor. Entre os 12 apóstolos,
nenhuma mulher, trans ou afrodescendente — logo, não era assim tão inclusivo.
Curou leprosos, cegos e paralíticos, sem perceber que o correto seria chamá-los
de portadores de hanseníase, de deficiência visual ou locomotora — afinal,
palavras matam. Jesus pode até ter feito o L na Santa Ceia e estar à esquerda
do Pai — mas Deus é, com certeza, de direita.
Ele criou o mundo em seis dias e descansou
no sétimo, inventando a famigerada escala 6x1. Começou num domingo, com “Haja
luz” — e houve luz, sem licitação, sem ouvir a sociedade civil, sem levar em
conta se alguma minoria preferia continuar no escuro.
No segundo dia, separou as águas e criou o firmamento —
dispensando projeto legal e Anotação de Responsabilidade Técnica (ou Registro
de Responsabilidade Técnica, já que era o Supremo Arquiteto do Universo, não
engenheiro). Tudo num sistema de total desregulamentação. Em seguida, criou as
plantas. Era a gênese do agronegócio, que sabemos muito bem a quem interessa e
aonde vai dar.
Então foi a vez de conceber o Sol (grande, luminoso,
masculino), a Lua (miúda, sem luz própria, feminina) e as estrelas (que só
aparecem quando o Sol deixa e cuja única função é tumultuar o mapa astral).
Direita patriarcal, sem dúvida.
No quinto dia, vieram os animais do mar e do ar, que deviam
se multiplicar — sem planejamento familiar nem acesso a métodos contraceptivos.
Interrupção da gravidez, sem chance. Direita conservadora, na veia.
A sexta-feira foi ainda mais complicada: Deus afirmou ter
criado os animais selvagens e os domésticos no mesmo dia. Darwin explicaria,
alguns milhões de anos mais tarde, como a coisa realmente aconteceu. É
negacionismo científico que chama?
E o pior estava por vir: gerou o homem e decidiu que ele
dominaria todos os seres, numa estrutura vertical e especista. Só depois é que
foi projetada a mulher (olha o patriarcado aí). Não satisfeito, proibiu o
acesso à árvore do conhecimento. Tudo bem que hoje é a esquerda que prega a
regulação dos meios de comunicação, mas a censura está historicamente associada
à direita — como mostra qualquer filme brasileiro cuja trama se passe entre
1964 e 1985.
Então a serpente (venenosa, esquerdista, propagadora de fake
news) induziu Adão e Eva ao erro. Como castigo, Deus exigiu que eles cobrissem
suas vergonhas (ah, esse puritanismo reacionário) e os deportou do Paraíso
(Trump feelings?).
Capitalista, condenou a espécie humana a ganhar o pão com o
suor do rosto, sem sequer instituir imposto sindical ou Justiça do Trabalho. E,
reiterando seu caráter misógino, determinou que as mulheres deveriam parir em
dor (doulas e parto humanizado, nem pensar).
Tudo bem que, depois do Dilúvio, Deus desenhou no céu um
arco-íris. Mas esse papo de o cristianismo ser de esquerda não me parece lá
muito católico.

Nenhum comentário:
Postar um comentário