Maior responsável pela rejeição a Messias, presidente
corre o risco de esvaziamento no fim do mandato ou se mostrar inviável mesmo
com reeleição
Reza a lenda (leia-se “o ChatGPT explica”) que a expressão
“pato manco” (lame duck, em inglês) surgiu na bolsa de Londres para designar
investidores assolados por dívidas que estavam capengando financeiramente, como
patos feridos que não conseguiam andar direito. Transposta para a política, a
imagem passou a descrever mandatários que, apesar de ainda ocuparem o cargo,
perderam o poder e influência.
No momento em que Lula se tornou o primeiro presidente a ter
uma indicação negada para o Supremo Tribunal Federal desde 1894, muitas
análises passaram a especular as causas e os culpados pelo vexame histórico.
No rol dos suspeitos, Davi Alcolumbre,
presidente do Senado, é o mais citado. Também se cogita que o ministro do
Supremo Alexandre de Moraes assumiu um papel central virando votos dados como
certos pelo Palácio do Planalto. E até o candidato, Jorge Messias, chegou a ser
acusado de ter garantido ao governo que teria os apoios necessários para sua
aprovação.
A recusa do nome de Messias teria, ainda, causas
circunstanciais e estruturais.
O placar amplamente negativo (42 a 34) seria evidência de
que o Centrão abandonou o governo e já busca se aproximar de Flávio Bolsonaro
(PL).
O instituto de sobrevivência da classe política e de
ministros do STF enrolados até o pescoço no caso Master também falou alto, seja
para dar um recado a Lula (que controla a Polícia Federal) ou para evitar o
fortalecimento do relator André Mendonça, que teria em Messias um futuro aliado
no STF.
Como pano de fundo, não dá para minimizar o crescente poder
do Congresso sobre o Executivo. Depois da expansão das emendas impositivas e de
recorrentes episódios de derrubadas de medidas provisórias e vetos
presidenciais, era questão de tempo os parlamentares rejeitarem um escolhido
para o Supremo.
Essas explicações fazem sentido e os personagens citados têm
sua parcela de culpa pelo desfecho da votação. Mas por trás de todos os motivos
e movimentos, sobressai a responsabilidade de Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista a O Globo de ontem, Randolfe Rodrigues, líder
do governo no Senado, afirmou que desde a escolha de Jorge Messias, em
novembro, o Palácio do Planalto já estava ciente das imensas dificuldades de
aprovação: “O presidente tinha consciência do risco. E houve uma decisão
consciente de levar a indicação até o fim”.
Lula sempre foi minoritário no Senado e já havia sofrido
importantes derrotas naquela Casa. Na votação de quarta, ele entrou em campo
com uma bancada de esquerda e centro-esquerda de apenas 18 senadores (10 do PT,
6 do PSB e 2 do PDT). Mesmo sabendo que os parlamentares do Centrão e da
direita estavam sedentos por impor-lhe um novo revés, ainda mais relacionado a
uma indicação para o STF, Lula não se envolveu no corpo a corpo para garantir
votos para Messias.
Além do mais, Davi Alcolumbre nunca escondeu a sua
contrariedade quando o Advogado-Geral da União foi apontado para o cargo que
ficou vago com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso - afinal, seu predileto
era Rodrigo Pacheco. Lula teve meses para tentar aplacar o descontentamento do
cacique do Senado, e mesmo assim não se moveu.
Tampouco Lula soube fazer do caso Master uma arma para a
reta final de sua gestão. Em vez de assumir enfaticamente a paternidade da
operação que tem como principais alvos baluartes do Centrão, o presidente se
limita a fazer menções esparsas sobre o assunto, condenando mais o corruptor
(no caso, Vorcaro) do que os que se deixaram corromper. Dessa forma, perdeu a
oportunidade de enquadrar aqueles que, agora, o acuam com votações
desfavoráveis.
Nem mesmo no Supremo o petista soube cultivar a aliança que
se mostrou tão forte logo após o julgamento do 08 de janeiro. Sentindo-se
devedor dos “salvadores da democracia” e temeroso de se deixar contaminar pelas
relações de Alexandre de Moraes, Toffoli e companhia com o banco Master, Lula
perdeu o protagonismo nas conversas com os membros do STF, eleitores indiretos
para os novos indicados a integrar a Corte.
Por todas essas razões, Lula não se tornou um pato manco -
ele já estava cambaleando mesmo antes de Messias. E agora, faltando cinco meses
para o primeiro turno, o presidente em busca da reeleição se mostra numa
situação muito delicada.
Com a popularidade em baixa e sofrendo derrotas maiúsculas
como as da semana passada (depois da queda de Messias, veio o coice com a
derrubada do veto à “lei da dosimetria”), Lula terá que conter a evasão de
oportunistas do Centrão para, assim, garantir palanque no interior do país.
Além do mais, os principais quadros de seu ministério se
afastaram para concorrer a cargos eletivos em novembro. Com uma gestão
conduzida por técnicos do segundo escalão, o repertório de medidas para
reverter a queda nas intenções de voto fica mais limitado.
Para piorar, mesmo que consiga se reeleger, a rejeição a
Messias é um prenúncio do que pode ser um mandato Lula 4 com Congresso ainda
mais conservador.
Há um grande risco de o pato manco de hoje se tornar
inviável a partir de 2027.

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