A cinco meses das eleições, sabemos quem são, como
agiram, como votaram e quem tem muito a temer com as revelações do caso Master
As mais recentes votações no Congresso, que culminaram com a
não aprovação de Jorge Messias para ocupar a vaga aberta de ministro do Supremo
Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial ao projeto que abranda as
penas a golpistas e a outros criminosos, têm sido vistas como uma derrota
fragorosa de Lula. E é. Mas não é apenas isso. É a pincelada final de um quadro
fiel da política brasileira. A obra está pronta e exposta. A nós, cabe
interpretá-la.
Devemos fazer isso não sob a luz dos
holofotes, mas com aquela luz natural que entra pelas frestas. Ou seja, pouco
importa o que dirão os políticos que misturam tintas para criar um simulacro da
realidade. A luz verdadeira ilumina os fatos. E, ainda que sejam episódios
distintos, que possibilitam leituras diversas, a verdade é uma só: os
interesses pessoais dos artífices dessas votações prevaleceram. Integrantes do
Judiciário e do Legislativo trabalharam em flagrante e desconfortável costura
política para fortalecer um lado da história: o próprio.
Uma das clássicas fábulas de Esopo, A Assembleia dos Ratos,
narra uma reunião de ratos que tentam encontrar uma solução para evitar o gato.
Eles decidem, unanimemente, amarrar um guizo no pescoço do gato para ouvir sua
aproximação. A proposta é excelente, mas ninguém se voluntaria para colocar o
guizo.
A política é uma fábula sem moral da história. Declarados
inimigos são capazes de, juntos, colocarem o guizo no pescoço do inimigo.
Muitas vezes, no entanto, só precisam estar atentos para ouvir o barulho com
distância razoável para agir antes que esteja perto demais. O guizo do agora é
o escândalo do Banco Master/BRB. O tilintar da investigação foi o alerta sonoro
dos ratos. Impossível de ignorar e passível de qualquer união. Como diria
Brizola, muitos "costearam o alambrado", bordão usado sempre que
aliados flertavam com grupos adversários.
Do outro lado do alambrado, está o povo, traído no caso da
cínica dosimetria. Ou o 8 de Janeiro não existiu? Não assistimos a uma
tentativa de golpe grotesca no coração da República? Não ficou provada a ameaça
à nossa democracia? Eles não se importam. Nós devemos nos importar.
Ao contrário dos mais fatalistas, consigo olhar o cenário e
ver um quadro bonito, porque é relevador da verdade. A cinco meses das
eleições, sabemos quem são, como agiram, como votaram e quem tem muito a temer
com as revelações do caso Master/BRB.
Ainda fabulando, lembro de O Leão, o Lobo e a Raposa, quando
o leão finge estar doente para atrair outros animais e comê-los. O lobo cai na
armadilha, mas a raposa, astuta, observa de longe e aprende com o erro do
outro. O povo é a raposa. O eleitor estará vigilante, aprendendo, até a hora
das urnas. Não subestimem o voto.

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