Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio
para as democracias
Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a
tarefa fica bem mais difícil
Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um
dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar
contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em
sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de
presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia.
Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela
seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir
seus impactos.
Pela inversa, também ocorre de governantes
serem beneficiados eleitoralmente por eventos positivos sobre os quais tiveram
pouca ou nenhuma participação, como uma alta de preços de commodities.
Se a responsabilização de presidentes e premiês já é
precária, muito mais difícil é a de parlamentares. Em teoria, caberia ao
eleitor acompanhar a trajetória de seus deputados
e senadores e só renovar seus mandatos se achar que sua performance
foi satisfatória. Esse tipo de responsabilização, já naturalmente difícil,
encontra entre nós até barreiras mnemônicas. Pesquisa
Datafolha acaba de mostrar que dois terços dos eleitores não se
lembram de em quem votaram para ocupar um lugar no Congresso há quatro anos.
Punições de parte desses eleitores seriam, portanto, totalmente aleatórias.
Já acreditei que esse fenômeno de esquecimento estava
relacionado ao sistema
proporcional que usamos para eleger deputados. A tese, porém, é
desmentida pelo índice de esquecimento de senadores, que é praticamente o
mesmo. Eleições para o Senado são majoritárias.
Meu palpite é que damos tanta ênfase à eleição presidencial
que ela acaba ofuscando os outros pleitos. São 38%
os não se recordam de em quem votaram para governador. Descasar os
pleitos total ou parcialmente, como fazem alguns países, talvez minorasse e
problema, mas não o resolveria.
Como sempre digo, a democracia não é boa por favorecer a
escolha de bons representantes, mas por assegurar a alternância pacífica do
poder.

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