Banco Central abriu tantas informações que, hoje, é um
pouco refém dessa transparência
O problema pode ser que os bancos centrais estão falando
demais. Durante as últimas décadas, toda a discussão foi sobre como aumentar a
transparência de suas decisões e de suas intenções futuras. Agora, há uma
corrente contrária que acha que estão pecando pelo excesso.
A questão central, na verdade, não é se os bancos centrais
devem ser mais transparentes ou não - no fundo, é sobre fazer uma boa
comunicação e evitar que ela vire uma camisa de força.
O proponente mais radical da tese de que os BCs devem falar
menos é o novo chefe do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que, na sua
primeira entrevista coletiva, disse que, quando os banqueiros centrais falam
muito sobre o futuro, os mercados entendem como uma promessa e deixam de fazer
o dever de casa de acompanhar a evolução dos dados econômicos.
Por aqui, no Brasil, o Banco Central
apanhou muito nos últimos dias por ter publicado um comunicado longo e confuso.
O diagnóstico do diretor interino de política econômica do BC, Paulo Picchetti,
e do presidente da instituição, Gabriel Galípolo, é que o excesso de
transparência no comunicado atrapalhou.
Picchetti diz que o BC deve procurar “um tamanho ótimo do
comunicado”. Não se trata, porém, de reduzir o grau de transparência. Na
verdade, a intenção parece ser a de escolher o momento certo e a forma correta
para comunicar as coisas. As mensagens que o Comitê de Política Monetária
(Copom) tinha para passar eram muito complexas para as poucas linhas do
comunicado. Cabiam melhor na ata do Copom, desdobradas no Relatório de Política
Monetária (RPM) e bem explicadas em uma entrevista coletiva.
No fundo, a confusão foi causada no documento em que o BC
tinha menos espaço para falar - e foi esclarecida na medida em que os membros
do Copom tinham mais espaço para explicar as intenções.
Galípolo, na entrevista do RPM, deu sinais de que não
pretende desidratar o comunicado. Segundo ele, os desentendimentos se deveram
mais a um caso específico do que a um problema mais geral.
Também seria certa ingenuidade, de outro lado, achar que o
mercado vai deixar de pescar sinais dos banqueiros centrais sobre o que
poderiam fazer no futuro. O último a usar comunicados com uma ou duas linhas,
no Brasil, foi Alexandre Tombini. Mas eles eram recheados de palavras-chave:
quando diziam que o Copom iria acompanhar “atentamente” o cenário econômico,
era certo que vinha mais juro pela frente.
Tombini não participava das entrevistas coletivas do
Relatório de Inflação, atual RPM, que eram conduzidas pelo então diretor de
política econômica Carlos Hamilton. Quando Hamilton, nas respostas, lia um
pequeno papel que mantinha no púlpito, sabia-se que vinha uma mensagem
telegrafada.
O próprio Banco Central, por outro lado, quer passar uma
mensagem sobre as suas intenções futuras. Ele só controla diretamente a taxa de
juro de curtíssimo prazo, mas o que move a economia para cima e para baixo e
traz a inflação para a meta é a sua capacidade de influenciar a curva de juro
de mercado de prazo mais longo.
Os BCs caminham numa linha fina: querem influenciar os juros
de mercado, mas sem cristalizar nada para não perder a flexibilidade para
adequar a sua estratégia caso o cenário econômico mude - mais importante ainda
quando o cenário é mais incerto.
O Banco Central fala muito, entre outros motivos, para
passar a sua função de reação, que nada mais é do que indicar o que faria
normalmente quando a inflação prevista para o futuro se desvia da meta e quando
a atividade econômica sai da sua trajetória de crescimento de longo prazo.
Nos últimos anos, o BC passou a divulgar os parâmetros de
seus modelos de projeção de inflação, abriu mais sobre como vê o cenário
econômico, os riscos que estão no radar e também o prazo que pretende colocar a
inflação na meta - o chamado horizonte relevante de política monetária.
Abriu tanta coisa que, hoje, é um pouco refém dessa
transparência, que acaba restringindo a sua margem de manobra. Paulo Coutinho,
da Mar Asset Management, publicou na semana passada um estudo que aponta alguns
desses dilemas do Banco Central.
O ponto dele é que o modelo do BC é conhecido, e todos podem
replicar. E esse modelo tem mostrado que choques que aumentam a inflação, como
uma forte alta do dólar, se tornaram mais persistentes no modelo do BC. E o
Copom passou a dar muita visibilidade para um prazo rígido e bem definido, de
18 meses, como seu horizonte relevante de política monetária.
Coutinho não discute se a decisão do Copom foi certa ou
errada, o que parece prudente para evitar o Fla-Flu que se instalou no mercado.
Mas diz que essa combinação tira flexibilidade para acomodar um choque de
oferta que o BC calcula ter duração de 21 meses, em vez do horizonte
tradicional de 18 meses. Quando tenta se livrar dessas amarras, como fez na
última reunião, perde credibilidade.
Picchetti, na entrevista coletiva, disse que muita gente no
mercado reclamou que o comunicado foi confuso porque, depois de muitas
palavras, não informou o que o BC fará na próxima reunião. E não era mesmo para
informar - esse é, precisamente, o ponto que muitos perderam.

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