No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de
inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece
Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar
em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há
muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder.
Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma
crise institucional em pleno ano eleitoral.
Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos
envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida,
com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas
não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos
assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o
resultado é zero. Problema resolvido.
Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu
dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”,
mas de autoridades interessadas em abafar o caso, por puro instinto de
sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele, Vorcaro,
está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta, depois outra, quem
sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie.
Daí pode receber uma pena pequena, quem sabe uma domiciliar, salvando uns
trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos, então ninguém está
envolvido.
Esse tipo de lógica, que faz desaparecer o problema, vale
para diversas situações. O leitor pode estranhar, mas considere o caso da taxa
de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida
que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas, o Banco
Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la, como fez há
duas semanas. Mas, sabe como é, a Selic já está muito alta, há bastante tempo.
E se a gente olhar mais à frente, lá por 2028, a inflação se aproxima da meta
de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta, o BC está, de certo modo, mudando
o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para,
digamos, 5% ao ano, está tudo resolvido. Já estamos lá, os juros podem ser derrubados.
Não é mesmo uma manobra parecida, suprimir o problema? Se
bem que, nesse caso, tem outra lógica. Como diz o próprio BC, uma causa básica
da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula, estimulando o
consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o
governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados, o que aquece a
economia e pressiona a inflação. Além disso, os déficits seguidos do governo
Lula elevam a dívida pública e, pois, os juros. Para os analistas de fora do
governo, o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas, quando se olha para
as projeções do Ministério da Fazenda, lá se diz que o resultado das contas
públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas,
acreditem, estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da
contabilidade oficial, até chegar a um superávit, que é meta do arcabouço
fiscal.
De novo, suprimiram o problema. Na real, tem déficit. No
papel timbrado, sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela
Constituição, nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19,
valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto.
Milhares de funcionários ganham muito mais que isso, com base em interpretações
jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os
penduricalhos, auxílios diversos, vantagens, indenizações, que ultrapassam o
teto, mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que
teto é teto — e ponto final. Em vez disso, está regularizando os penduricalhos.
Na prática, suprimiu o teto.
E ficamos assim: na real, tem corruptos; a inflação está
fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem
acima do teto. No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação
se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece, e o teto salarial não
existe.

Nenhum comentário:
Postar um comentário