A dificuldade de Flávio Bolsonaro em ‘virar páginas’ de sua
pré-campanha
Falta ao senador o ‘efeito Teflon’ de Jair Bolsonaro: a
capacidade de manter apoio popular mesmo produzindo falas e fatos que para
outros políticos seriam demolidores
O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.
Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle
alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A
verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de
situações desabonadoras se tornou generalizada.
O impacto das revelações sobre seus
contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, ainda não foi superado. O
mesmo vale para o estrago causado pela visita de Flávio ao presidente Donald
Trump e pela atuação do seu irmão Eduardo, ex-deputado federal, nos Estados
Unidos, ambas associadas a decisões do governo americano contrárias aos
interesses econômicos do Brasil.
O pré-candidato do PL à Presidência está tão afoito para se
desvencilhar dessa culpa que afirma ter se inscrito para apresentar argumentos
a favor do Brasil em audiência pública do Escritório Comercial americano. O
senador será um corpo estranho na reunião, normalmente frequentada por
representantes de empresas e associações setoriais.
O mais provável é que ele acabe atrapalhando a estratégia
dos especialistas e dos diplomatas. Ou, se houver uma desistência ou adiamento
do novo tarifaço que ele possa exibir como conquista diplomática, não será de
graça: o secretário de Estado, Marco Rubio, já expôs, por escrito, uma “oferta
generosa” de Flávio de “colocar uma equipe de transição” à disposição do
governo americano caso o bolsonarismo volte ao poder no Brasil.
Falta a Flávio o “efeito Teflon” de Jair Bolsonaro: a
capacidade de manter apoio popular mesmo produzindo falas e fatos que para
outros políticos seriam demolidores. Nele, notícias negativas não grudavam com
facilidade — em alguns casos, ele até saía fortalecido.
Mas Flávio não é Jair, pois carisma não se herda, e não há
nada que o pai em prisão domiciliar possa fazer a respeito, isolado que está da
arena pública. Se Flávio for derrotado, poderá ser tentador para seus aliados
atribuir a culpa a Michelle. Mas o verdadeiro responsável será o próprio Jair,
que preferiu um sucessor do seu sangue a apostar no governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas (Republicanos), sem tantos esqueletos no armário.

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