Para ele, nossos triunfos deviam-se a termos abandonado a
restrição a negros que vigia também no Itamaraty
O autor argumenta que o futebol criara as condições para,
finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros
A Gilberto
Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a
superioridade do futebol brasileiro
se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao "mulatismo"— não
está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado
"Foot-ball mulato", em sua grafia original, denotando as origens
inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: "Uma das condições dos
nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de
mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo;
mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros".
O contexto era a Copa do
Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito
o melhor jogador. Era também o início da ditadura
do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua
correspondência.
Freyre, que viria a ser consagrado como o
pai do mito da democracia racial, faz
dura crítica ao racismo do Estado brasileiro: "a escolha de jogadores
brasileiros para os encontros internacionais andou por muito tempo obedecendo
ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do
Itamaraty. Nada de pretos nem de mulatos chapados, só brancos ou então mulatos
tão claros que parecessem brancos. Ou, quando muito, caboclos, deviam ser
enviados ao estrangeiro mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama, a quem Eça
de Queiroz costumava chamar na intimidade de mulato cor-de-rosa".
Na senda aberta por Freyre, Mário Filho produziu, quase dez
anos depois, uma obra-prima, "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947).
No prefácio da obra, Freyre acrescenta um argumento novo: o futebol permitiu a
sublimação —sim, ele foi pioneiro em mobilizar conceitos freudianos entre nós—
de elementos irracionais e primitivos de nossa cultura, domesticando-os. E
especula sobre o que teria acontecido com o samba, a capoeiragem e a
malandragem. Seu vaticínio quanto ao cangaceirismo é profético, mas em sentido
oposto ao que imaginou: "o cangaceirismo teria provavelmente evoluído para
um gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones
ítalo-brasileiros".
Mário Filho descreve a transformação ocorrida. O futebol não
alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. "Os ídolos do futebol, todos
brancos. Quando muito, morenos. Preto só entrava no escrete uma vez na vida e
outra na morte. E quando um branco que devia jogar estava fora, doente ou coisa
que o valha. Então o preto podia jogar."
E, mostrando que foi muito mais do que um cronista
esportivo, arrematava: "O mulato e o preto eram, assim, aos olhos dos
clubes finos, uma espécie de arma proibida. Não um revólver, uma navalha. Se
nenhum grande clube puxasse a navalha, os outros podiam continuar lutando de
florete".
Freyre argumenta que o futebol criara as condições para,
finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros, como o dionisíaco
Leônidas. Seu antípoda, Domingos, que jogava sem floreios, era "uma
espécie de inglês desgarrado nos trópicos, como Machado de
Assis" —mas, ainda assim, "tinha alguma coisa de concentradamente
brasileiro", de "mulatismo". Freyre escreveu essas linhas em
1947, antes de surgirem Pelé e Garrincha.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e
ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

Nenhum comentário:
Postar um comentário