Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além
do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como
o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca
O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à
Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer
crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante
para o bolsonarismo.
Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de
quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal
interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA,
Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A
ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade,
são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela
quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista
como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a
maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).
Não parou por aí. Acrescentou que as
mulheres têm um voto mais emocional ante homens racionais e votam mal, vide o
favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no eleitorado feminino e
dos democratas nos EUA. E disse ainda que esta incompatibilidade entre mulheres
e voto acomete, principalmente, as solteiras porque as casadas acompanham o
voto dos maridos. E, para arrematar, concluiu: “Vocês podem arrancar os
pentelhos, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas isso é
estatística”.
Entusiasmado pelo alcance de sua peroração medieval, Paulo
Figueiredo provocou Damares Alves, que pusera em dúvida sua presença em evento
de mulheres conservadoras promovido por Flávio Bolsonaro. A senadora do
Republicanos do Distrito Federal, que foi ministra do governo Jair Bolsonaro,
reagiu. A treta escalou quando Oswaldo Eustáquio, blogueiro condenado no 8/1,
foragido da justiça e pré-candidato a deputado federal pelo PL do Paraná,
engrossou a crítica ao feminismo e fez insinuações sobre a vida pessoal da
senadora.
A entrada de Damares em cena não se dá apenas pela
proximidade com Michelle. A senadora foi a defensora mais vocal da direita do
ECA Digital, também conhecida por Lei Felca, que transpôs para as redes sociais
o Estatuto da Criança e do Adolescente, endureceu o combate à pedofilia digital
e a responsabilização das plataformas pela erotização e a monetização de
conteúdo de menores de idade.
A tramitação do ECA Digital, que entrou em vigor em março,
já continha o germe da desavença que agora eclodiu. Deputados que, na
classificação de Figueiredo, atraem o voto racional, como os deputados do PL,
Paulo Bilynskyj (SP), estrela da bancada da bala, e José Trovão (SC),
caminhoneiro precursor do 8 de janeiro, tentaram emplacar emendas ao projeto.
Propuseram a restrição do escopo de denúncias que o Ministério Público poderia
levar adiante contra a exploração de crianças e adolescentes e mais responsabilidade
dos pais, relativamente àquela das plataformas, no uso da internet por crianças
e adolescentes.
Esta ala foi derrotada dentro de seu próprio partido pela
resistência, principalmente, das igrejas evangélicas. Durante os cultos, os
pastores colheram pressão das mães que temem pelo aliciamento de seus filhos
por pedófilos digitais e afins. O presidente do Conselho de Pastores, Mauro
Lima, chegou a convidar uma advogada para uma palestra sobre a importância do
ECA Digital em maio, dada o tumulto provocado pela ofensiva da machosfera
bolsonarista.
As bases para a expansão do embate entre Flávio e Michelle
estão dadas porque a turma do senador não desistiu de revogar o ECA Digital. O
deputado federal Mario Frias (PL-SP), que foi ministro de Bolsonaro e é
produtor de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente financiado por Daniel
Vorcaro, do Master, é autor de uma iniciativa na Câmara para revogar a lei que
acabou de entrar em vigor. Alega que a livre iniciativa foi cerceada e que as
obrigações criadas comprometem a sobrevivência, principalmente, de pequenas
plataformas de jogos online.
Aliados de Michelle, como o deputado Nikolas Ferreira
(PL-MG), estão no clube dos contrariados pelo ECA Digital, mas, com o embate
nessas bases, o estrago está feito. Nas pesquisas que conduz, a CEO do Idea,
Cila Schulman, vê transversalidade ideológica na pauta e, sobretudo, no
discurso de humilhação como aquele protagonizado pela ex-primeira-dama.
Coordenadora de gestão no TRE-SP, Luna Chino tem dados
definitivos sobre o peso das mulheres. O eleitorado feminino não apenas supera
o masculino em 7,8 milhões, como, para desgosto de Paulo Figueiredo, as
mulheres comparecem mais para votar que os homens. Nas eleições de 2022 seu
comparecimento foi dois pontos percentuais acima do masculino.
Isso se deve, em parte, à escolaridade. Em 2024, o número de
eleitoras com ensino superior superava em 3,8 milhões o de eleitores com o
mesmo nível de instrução. E a taxa de comparecimento é proporcional à
escolaridade. Entre as eleitoras com diploma superior foi de 83,4%. As mulheres
não apenas votam mais como também comandam o dia da votação: representam 70%
dos mesários.
Flávio Bolsonaro mexeu num vespeiro. Michelle tem como
mostrar que seu enteado exporá as crianças e adolescentes da periferia à selva
digital e ao descontrole das armas. Para isso, a nova camisa 10 de Lula teria
que sair do banco de reservas e correr o risco de cindir ao meio o bolsonarismo
- sem garantia de êxito.

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