Mensagens mostram o banqueiro solicitando reservas para
“Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no
hotel Four Seasons Ritz de Lisboa
As novas informações tornadas públicas pelo ministro André
Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as investigações da Operação
Compliance Zero, que investiga o caso Master, colocam o presidente do
Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), expoente do Centrão, em situação
cada vez mais delicada perante a Justiça, ao mesmo tempo em que aproximam o
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do perímetro das
investigações.
O foco do relatório é a relação entre Daniel Vorcaro,
ex-controlador do banco, e Ciro. Segundo a Polícia Federal (PF), o parlamentar
teria recebido uma série de vantagens econômicas enquanto atuava politicamente
em favor dos interesses do banqueiro. Pagamentos mensais foram classificados
pelos investigadores como uma espécie de “mesada”, que variaria entre R$ 300
mil e R$ 500 mil, além da aquisição de participação societária em empresa e do
custeio de viagens internacionais de alto padrão.
Hospedagens em hotéis de luxo, voos em
jatos particulares, refeições em restaurantes sofisticados e até compras de
roupas para viagens de esqui foram pagos por Vorcaro, em Paris, Nova York,
Lisboa e Courchevel, nos Alpes Franceses, famosa por suas estações de esqui e
hotéis de alto luxo. Os benefícios econômicos diretamente relacionados às
viagens ultrapassam R$ 468 mil, sem contar os custos dos voos privados.
A PF sustenta que existe uma relação direta entre os
benefícios recebidos e a atuação parlamentar de Ciro em favor dos interesses
financeiros de Vorcaro e do Master. É justamente essa conexão que transforma os
presentes, viagens e pagamentos em potenciais elementos de corrupção, tráfico
de influência e lavagem de dinheiro.
O busílis dessa conexão seria a chamada “Emenda Master”.
Segundo a investigação, uma proposta de alteração da PEC 65/2023 teria sido
elaborada pela própria assessoria do banco e, posteriormente, apresentada por
Ciro no Senado. A emenda buscava modificar regras do Fundo Garantidor de
Créditos (FGC), ampliava possibilidades de negócios para a instituição
financeira investigada e transferia riscos ao sistema de garantia bancária. A
PF afirma ter encontrado mensagens, metadados e minutas que indicariam que o texto
protocolado pelo senador reproduzia integralmente a versão produzida pelo
Master.
Também há suspeitas de ocultação patrimonial. De acordo com
os investigadores, empresas familiares, circulação de recursos entre pessoas
próximas, utilização de dinheiro em espécie e interposição de terceiros teriam
sido empregados para dificultar o rastreamento financeiro dos benefícios
recebidos. A suspeita é de que tais mecanismos pudessem caracterizar lavagem de
capitais, tendo Ciro como possível beneficiário final.
Tour em Lisboa
Há também a investigação sobre um episódio envolvendo o
transporte de R$ 350 mil em dinheiro vivo em uma aeronave ligada ao grupo de
Vorcaro. O piloto afirmou ter ouvido referências ao nome de Ciro durante a
operação. Embora a própria PF reconheça que ainda não há comprovação material
da entrega dos recursos ao senador, o relato foi considerado compatível com o
conjunto de fatos investigados e permanece sob apuração.
O mesmo relatório faz com que as investigações passem a
rondar Hugo Motta. O presidente da Câmara aparece vinculado a uma viagem para
Lisboa, em junho de 2024, cuja hospedagem teria sido paga por Vorcaro.
Mensagens encontradas pela PF mostram o banqueiro solicitando reservas para
“Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no
hotel Four Seasons Ritz Lisboa. Em outra mensagem, Vorcaro manifesta
preocupação com privacidade e segurança do encontro, pedindo controle rigoroso
do ambiente.
Os investigadores cruzaram as mensagens com documentos
encontrados nos e-mails de Vorcaro. O confronto dos registros levou a PF à
conclusão de que os pagamentos identificados correspondem efetivamente à
hospedagem de Ciro e Motta em Lisboa. As diárias teriam custado cerca de R$ 18
mil. A situação do deputado, porém, é muito distinta da do senador. O relatório
não atribui ao presidente da Câmara participação em esquemas de favorecimento
legislativo, nem o aponta como beneficiário de pagamentos sistemáticos.
As novas revelações acuam Ciro e, ao mesmo tempo, rondam
Motta porque o colocam pela primeira vez dentro do contexto factual das
investigações, associado a benefícios pagos por Vorcaro e citado em
comunicações consideradas relevantes pela PF. Nesse sentido, o relatório amplia
o alcance político do caso Master e continua produzindo efeitos sobre figuras
centrais do Congresso.

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