domingo, 14 de junho de 2026

OS PROBLEMAS QUE A COPA NÃO RESOLVE

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?

Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.

Inflação contida, mas distante da meta, soma-se a um escasso investimento produtivo e a um baixo ritmo de expansão econômica, mantendo o País num atoleiro de mediocridade e de enorme desperdício de potencial. No ano passado, o setor público e o setor privado investiram em meios físicos de produção – máquinas, equipamentos, obras e instalações – uma soma correspondente a 16,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Outros emergentes alcançaram taxas iguais e até superiores a 18%, ampliando muito mais velozmente seu potencial de crescimento e de modernização.

Enquanto analistas mostram inquietação diante das estimativas de alta de preços, o governo avança em medidas populistas, como linhas de crédito facilitado para compras de caminhões, ônibus e táxis, com novos custos para o poder federal. Pesquisas têm apontado ampliação da vantagem eleitoral de Lula em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato da oposição à Presidência da República. Mas esse avanço é atribuível também a fatores estranhos ao desempenho do governo.

Pelo menos em parte, o enfraquecimento da candidatura oposicionista tem sido atribuído ao relacionamento, recentemente exposto, do filho de Jair Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, suposto fornecedor de recursos para um filme sobre o ex-presidente. O uso de expressões como “irmão” nas comunicações entre o senador e o bilionário indica uma aparente proximidade, pouco recomendável neste momento. Políticos da oposição defenderam a renúncia de Flávio Bolsonaro à candidatura, mas a ideia foi rejeitada pelo menos inicialmente.

Carente de propostas, projetos e programas, a disputa eleitoral se mantém, pelo menos até agora, polarizada entre a extrema direita, representada pelo bolsonarismo e por grupos ultraconservadores, e, do outro lado, pela esquerda e por grupos do centro liberal e do liberal-esquerdista. Marcado principalmente pelo confronto ideológico, o cenário contém pouquíssima indicação dos possíveis caminhos econômicos, sociais e institucionais disponíveis para os brasileiros nos próximos anos.

Nenhum dos candidatos mais competitivos apresentou roteiros de trabalho ilustrados com prioridades econômicas e sociais, projetos de obras, programas de inclusão, propostas educacionais, sequências de investimentos, formas de cooperação entre os setores público e privado, compromissos de recuperação e estabilização das finanças públicas e aperfeiçoamento de relações entre os Poderes da República. Os candidatos já conhecidos ou ainda potenciais pouco ou nada representam, até agora, além de compromissos mais ou menos firmes com a direita, a esquerda e um conjunto vagamente rotulado de Centrão.

Enquanto isso, o presidente Lula vai usando os meios governamentais para favorecer grupos profissionais, como taxistas e motociclistas, num esforço para ampliar e consolidar segmentos de uma base eleitoral. Esforço semelhante vem sendo aplicado na tentativa de atrair grupos ideológicos e religiosos diferenciados, como algumas correntes evangélicas.

Apesar desse esforço, também o governo continua devendo, pelo menos ao público mais atento, um discurso mais claro e mais detalhado sobre planos e projetos para a economia e para a organização social e política.

Estarão o presidente e seus auxiliares dispostos a aceitar por mais quatro anos o crescimento medíocre observado na maior parte deste século? Estarão pensando em como ampliar o investimento produtivo e modernizador? Terão desenhado roteiros de desenvolvimento setorial, com programas e projetos para a indústria de transformação, a agropecuária, o mundo financeiro, o riquíssimo segmento mineral, a valorização dos diferentes biomas, cuidando ao mesmo tempo da expansão e da diversificação da economia externa? Quais serão suas ideias e ambições para a ciência e a tecnologia?

O Brasil tem sido há muito tempo um emergente promissor, mas condenado, aparentemente, a um crescimento anual próximo de 2%, completado por uma inflação mais ou menos contida, mas persistente. Em sua última projeção, o Banco Mundial reviu de 2% para 1,9% a expansão do PIB brasileiro estimada para este ano. Juros altos são parte da explicação, mas o Banco Central justifica esses juros apontando a inflação resistente e a insegurança das contas públicas. O presidente da República, no entanto, parece continuar olhando para outro lado.

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