segunda-feira, 15 de junho de 2026

SÓ NÃO GOSTA DO MARCO DO FOMENTO QUEM NÃO FAZ CULTURA

Margareth Menezes*, Folha de S. Paulo

Estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados

O objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores

O debate público sobre o fomento à cultura é, e deve ser, constante. É um reflexo da vitalidade de um setor que pulsa em cada canto do nosso país, gerando emprego, renda e, acima de tudo, identidade.

Recentemente, a imprensa trouxe à tona discussões sobre a prestação de contas no Ministério da Cultura (MinC), ecoando preocupações legítimas sobre a gestão dos recursos públicos. É fundamental, contudo, que essa discussão seja pautada pela verdade dos fatos e pelo reconhecimento dos avanços que estamos implementando.

É preciso, antes de tudo, contextualizar. O passivo de prestações de contas que o MinC enfrenta hoje não é uma criação da gestão atual. É um desafio histórico, acumulado ao longo de décadas, sob diferentes governos e regras. A desestruturação e o desmonte do Ministério da Cultura em períodos anteriores agravaram essa situação, deixando um legado de processos represados e equipes insuficientes.

Chegamos para reverter esse cenário, não para ignorá-lo.

Nesse contexto, o MinC tem liderado uma verdadeira virada de paradigma no modelo de controle do fomento cultural. Com a autorização legal da lei 14.903, de 2024, aprovada pelo Congresso Nacional, estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados. Essa abordagem não é uma invenção isolada; ela se alinha a um modelo consolidado por legislações como a lei 13.019, de 2014 (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil), a Lei Paulo Gustavo (Lei 14.148, de 2021) e o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (lei 13.243, de 2016). Todas essas normativas convergem para a importância de focar na efetividade da entrega do objeto e não apenas na conferência exaustiva de papéis.

É crucial desmistificar a ideia de que o foco em resultados significa abrir mão da análise financeira. Pelo contrário. A legislação é clara: a análise financeira permanece um procedimento crucial nos casos em que a execução do projeto não é efetivamente comprovada. O que muda é o método. Em vez de exigir a apresentação prévia de notas fiscais em dezenas de milhares de processos —uma exigência que, na prática, gerava filas e não impedia desvios—, concentramos a energia da fiscalização onde ela é mais eficaz: no controle prévio à liberação dos recursos, no monitoramento concomitante à execução e na avaliação dos resultados por objeto.

A documentação fiscal não desaparece; ela permanece exigível e verificável, sob a lógica da proporcionalidade e da boa-fé. O agente cultural é obrigado a guardar toda a documentação de execução física e financeira por cinco anos, à disposição dos órgãos de controle, e a rejeição das contas acarreta a devolução dos recursos, proporcional à inexecução verificada e com correção monetária, além da suspensão do direito de celebrar novos instrumentos de fomento.

Os resultados dessa nova abordagem já são visíveis. Em 2025, o MinC analisou mais de 11 mil prestações de contas, um recorde histórico, reduzindo o passivo para 10.077 casos pendentes, o menor patamar desde 2010. Nosso compromisso é afastar o risco de novas prescrições e, mais importante, liberar nossas equipes para se concentrarem em ações que realmente previnem e combatem ilícitos. Isso significa menos burocracia e mais cultura chegando à ponta.

As observações dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), são sempre bem-vindas e contribuem para o aprimoramento contínuo de nossas políticas. O diálogo permanente com essas instituições é parte essencial de nossa gestão, garantindo que o rigor no uso do dinheiro público caminhe lado a lado com a realidade da produção cultural em um país de dimensões continentais. Não se trata de ausência de controle, mas de um controle mais inteligente, moderno e eficaz.

No fim das contas, o objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores, vibrante e acessível a todas as pessoas do país. Como bem disse o grande Gilberto Gil, quando ministro da Cultura: "Quem faz cultura é a sociedade e não o Estado".

Cabe a nós, no MinC, garantir as condições e a transparência para que essa cultura aconteça. E, quem não entende essa premissa, talvez ainda não tenha compreendido a verdadeira essência do fomento cultural.

*Ministra da Cultura

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