As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar
bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington — a
classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e um tarifaço
adicional de 25 por cento — têm de ser analisadas com frieza.
No mesmo dia em que Jameson Green, o representante
comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o
Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países.
Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.
Quando entram em ebulição, as relações Brasil-Estados Unidos
não influenciam apenas a economia. Elas passam a ser a agenda principal das
eleições.
Durante algum tempo, parecia aos candidatos que a
proximidade com Donald Trump era um trunfo eleitoral. Agora, pelo menos um
deles, Lula, terá de se distanciar e retomar o tom crítico que sempre teve em
relação ao presidente dos EUA.
A classificação das organizações brasileiras como
terroristas estava sendo combatida como ameaça à soberania nacional. Mas tudo
isso é um pouco vago para a população mais pobre, sobretudo a que vive nas
áreas ocupadas pelo crime. Tem-se debatido tudo: se a medida favorece Flávio ou
Lula, que impacto terá no sistema financeiro; só não se debate um tema
essencial: que diferença terá para os que vivem sob o jugo do crime organizado?
Nenhuma. A própria ideia de asfixiá-lo economicamente não leva em conta que o lucro
hoje é obtido mais pelo controle do território do que pelo tráfico. Eles vendem
gás, detêm o transporte alternativo, exploram o gatonet (uma instalação
clandestina para captar a TV a cabo), cobram taxa de proteção e até constroem
prédios. Podem sobreviver mesmo sob asfixia financeira tradicional.
Esses aspectos são pouco debatidos porque não queremos
encarar a falência do Estado nas periferias. Mesmo se os Estados Unidos
quisessem resolver, iriam fracassar se usassem apenas uma solução militar.
Fracassaram em inúmeras guerras assimétricas, daí a novidade na Venezuela: uma
ação de comando e controle do petróleo, que era seu objetivo máximo. Também o
era no Iraque, mas fizeram uma guerra desastrosa.
O argumento de que o Pix estava ameaçado acabou ganhando
força com a decisão americana. Baseados na seção 301 de sua lei comercial, os
americanos investem contra o Pix, afirmando que o sistema montado pelo Brasil é
desleal com os concorrentes. O Pix é tão bem-sucedido, tão entranhado no
cotidiano brasileiro, que, mesmo com mudanças, dificilmente perderá sua posição
dominante.
Mas todo esse debate vai convergir na campanha nacional para
a defesa do nacionalismo. A expressão “traidores da pátria” já foi usada contra
Flávio e a família Bolsonaro. Enquanto o debate se limitava ao tema do crime
organizado, a direita respondia com a acusação de que Lula protegia os
criminosos.
O tema econômico agora vai dominar a discussão. Não há
argumento que se sustente se não for em defesa do Brasil e na condenação do
tarifaço. Lula recebeu de novo um presente político que subestimou
acertadamente, apostando na negociação. Mas os americanos decidiram antes mesmo
do prazo acordado na visita a Washington.
Isto mostra que as negociações devem prosseguir, mas não são
mais o único caminho. Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir
novas frentes, enfim, trabalhar com a hipótese de que os Estados Unidos já não
serão o mesmo parceiro do passado.
Tempo para definir uma nova estratégia, contando com a
possibilidade de um novo mandato. Certamente, essa medida vai aproximar mais o
Brasil da China, mas o país não pode perder a perspectiva de autonomia e de
equilíbrio nas relações com os EUA, apesar da passagem catastrófica de Trump.
Uma campanha eleitoral nem sempre é o momento para debater
esses temas. As acusações recíprocas predominam sobre o diálogo. Mas é tempo de
o Brasil ter uma visão estratégica de longo prazo, baseada nas nossas riquezas
naturais, na transição energética, no desenvolvimento sustentável e no papel de
líder mundial na questão ecológica.
Quando se sabe claramente o que se quer a longo prazo, esses
sobressaltos na política externa ficam mais fáceis de serem absorvidos sem
grandes traumas. E não existe disputa para saber quem é mais próximo de um
presidente tóxico como Trump. Fica-se mais perto desse termo abstrato chamado
soberania nacional.
O mesmo vale para a questão de segurança pública. Se
estivéssemos endereçando o problema adequadamente, reconquistando centímetro
por centímetro o território ocupado, a classificação americana seria apenas um
exercício retórico.
Mesmo assim, nossos argumentos são ótimos. Os americanos
reclamam, por exemplo, que o Pix esmaga os concorrentes. Na minha pesquisa
preliminar, não encontrei um único concorrente que ofereça os serviços de
pagamento gratuitos.
Quem sabe não evoluam para isso, se um dos seus objetivos
principais é apenas acumular dados? A experiência brasileira é superior. A
única forma inteligente de rivalizar com ela é imitá-la.
Na minha experiência, também se lucra com a humildade. A
Suécia criou um número pessoal, cada um tem seu número no sistema
administrativo. A Índia fez o mesmo e hoje economiza milhões de dólares nos
pagamentos de ajuda social.
Artigo publicado no jornal Estadão em 05 / 06 / 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário