Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP),
provoca reflexão
Detrás de uma aberração individual pode haver uma
microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da
atenção, normalizando o anormal
Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no
incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos
por um técnico levantaram nos braços uma
jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria
uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar.
Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile
visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.
Sujeitos
à acusação de homicídio, os instrutores, perplexos consigo mesmos, alegam
ter sofrido um apagão, nenhum deles notou a ausência das amarras de segurança.
Inexplicável assomo de inconsciência: um fenômeno análogo ao do pai ou mãe que
esquece o bebê num automóvel trancado enquanto faz compras num supermercado.
Com uma diferença gritante: na ponte, eram várias pessoas. A atenção que se
deveria prestar à segurança competia com a câmera GoPro fixada no corpo da
jovem. Só quem estava fora do circuito imediato desse holofote pôde perceber e
avisar que faltavam as cordas.
Não há como se eximir de culpa. Mas detrás de uma aberração
individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração
despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal. Pertinente é a
metáfora de Engels de
que "olhar apenas para o indivíduo seria o mesmo que observar a árvore e
não considerar o bosque" (em "Do Socialismo Utópico ao Socialismo
Científico"). Em "bosques" implausíveis, mas verossímeis, se
expande a aura popular da anestesia perceptiva e do descaso.
Divisa-se assim um pequeno paradigma extensivo à
generalidade do corpo social. De fato, essa aberração de comportamento evoca o
blecaute perceptivo e moral que acomete as massas dessensibilizadas de sua
espoliação pelas gestões incivis dos mecanismos de Estado ou de imposição das
dinâmicas de sujeição social e psíquica pelas políticas neoliberais.
Outro não é o quadro atual, em que o senso comum assiste
bestificado à desagregação institucional e à fragmentação do laço social por
efeito da indiferença das elites ao território e do cinismo como marcador da
ética social imediata. O apagão sensível e moral em instituições como o Congresso,
o Judiciário e os blocos partidários tem consequências ainda não plenamente
avaliadas sobre o corpo social. A dinâmica da necropolítica, orientada para a
destruição da vida comum e o extermínio dos descartáveis, não aparece nas
macroanálises noticiáveis.
Além do evidente sofrimento da família pelo sacrifício banal
de uma filha, depreende-se da imagem do episódio nas redes uma metáfora
descritiva da atualidade: o país a caminho de um voo instagramável sobre o
abismo, sem cordas de sustentação, carregado por sujeitos de um apagão adverso.
É o senador, o deputado, o juiz, o executivo eleito, quando submersos no vórtex
escabroso da corrupção. Esse grupo inclui o cidadão anestesiado. A analogia é
consistente, levando-se em conta que, fora do blecaute da consciência, houve
quem gritasse pelas cordas. Espera-se que esse grito possa repercutir nas urnas
eleitorais.
*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras
obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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