O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas o
compromisso de continuar negociando
Há mais de cem dias, a maior potência do mundo entrou em
guerra contra o Irã para eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas
capacidades militares e derrubar o regime. Nenhum desses objetivos foi
atingido. Pelo contrário: não há sinais de que o Irã tenha interrompido seu
programa nuclear; suas forças seguem atacando os vizinhos e o regime, antes
fragilizado, passou por uma renovação e radicalização.
Quem parece acuado não é Teerã, mas Washington. Ontem, em
seu aniversário de 80 anos, Donald Trump anunciou que o acordo estava
concluído, autorizou a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos
portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a
assinatura na Suíça e estende por 60 dias o cessar-fogo.
Mas o anúncio, mais do que encerrar a
crise, expõe a posição em que os EUA se enfiaram: uma superpotência que ditou
ultimatos, mas dependeu de mediadores para amarrar um texto cujos termos
centrais ficaram adiados para uma negociação que apenas começa.
Tudo isso é notável por dois motivos. Primeiro: os EUA
haviam negociado um acordo nuclear com o Irã em 2015 (sob Obama), antes de
Trump rasgá-lo em 2018. Segundo: a guerra impôs um custo. Como escreveu Robin
Wright na revista
The New Yorker: “A guerra custou US$ 28 bilhões, a vida de
13 americanos e de milhares de iranianos, o fechamento de Ormuz, a interrupção
do fornecimento global de energia, uma crise econômica que atingiu centenas de
milhões no mundo e um dano possivelmente irreversível à reputação dos EUA.”
QUEDA. Além de perceber que está com influência limitada
sobre Teerã, Trump enfrenta dificuldades de controlar Israel e Hezbollah,
atores-chave no conflito. Ontem, um ataque israelense a Beirute quase
descarrilou o acordo e obrigou Trump a declarar que o ataque “não deveria ter
acontecido”.
Que o entendimento tenha sobrevivido a esse episódio não
apaga o fato de que TelAviv demonstrou, mais uma vez, poder de veto informal
sobre qualquer diálogo entre EUA e Irã.
Internamente, a guerra deu força aos radicais da Guarda
Revolucionária, que não temem continuar ou até intensificar o conflito que os
levou ao centro do poder. O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas,
segundo a revista The Economist, um compromisso de continuar negociando: a
trègua estendida de 60 dias, a reabertura gradual do estreito, à medida que o
Irã remove as minas, princípios gerais sobre o programa nuclear e um alívio de
sanções condicionado e faseado, com os detalhes adiados.
Foi Trump quem mais recuou. Por exemplo, a entrega do urânio
enriquecido, antes inegociável, deu lugar à aceitação de que o Irã dilua o
material e fique com ele. O resultado mais relevante, porém, não envolve o Irã,
mas os aliados dos EUA no Golfo, que absorveram danos de uma guerra que não
pediram e se deram conta de que ter uma base americana não os protegeu. Pelo
contrário, tornou-os alvos do Irã.
Ao perceber que os EUA não estavam dispostos a protegêlo, o
Catar tentou negociar um acordo com o Irã, oferecendo suspender a produção de
gás em troca do compromisso iraniano de não atacar suas principais instalações
de energia.
RISCO. Daí decorre a lição para empresas e investidores: o
petróleo disparou com a destruição da oferta e depois recuou diante da
expectativa de acordo, num vaivém que não foi episódio isolado, mas sintoma de
um novo regime de risco – a volatilidade veio para ficar. Contratos futuros,
seguros e reservas amortecem choques, mas não substituem o fluxo físico.
Prêmios de seguro e fretes, enquanto isso, viraram custo permanente.
Há, contudo, um beneficiário da instabilidade: ao tornar
imprevisíveis os preços do petróleo, a guerra acelerou a corrida por energia
limpa, e países castigados pela escassez passaram a enxergar painéis solares,
baterias e veículos elétricos chineses como rota de fuga.
Para Trump, sobra um caminho amargo: oferecer concessões
para destravar um estreito cuja travessia, antes da guerra, ninguém precisava
negociar, enquanto a questão nuclear fica para depois. Para o mundo, a herança
é mais duradoura. Qualquer que seja o desenho final do cessar-fogo, o risco
geopolítico elevado da energia virou um custo fixo.
*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy
School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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