Na segunda metade do século passado, a esquerda brasileira
foi uma das mais divididas do mundo. Integrantes famosos de suas organizações
geralmente passaram por três delas. Dilma Rousseff passou por quatro: Política
Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina), Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares),
todas clandestinas. Hoje é a direita que se esfarela. O governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas, potencial candidato ao Planalto, resolveu ficar de
fora. Restou o bolsonarismo dinástico. Ao tempo dos Bragança, D. Pedro II se
dava mal com o cunhado, o Conde D’Áquila, mas a rusga ficou circunscrita ao
palácio. Hoje, Michelle Bolsonaro grava vídeo alfinetando Flávio Bolsonaro,
que, por sua vez, tem o apoio do pai encarcerado.
Como ensina o repórter Octavio Guedes, eles se desentendem
seguindo um roteiro de novelas de televisão, em capítulos sem vestígio de
interesse público.
Da velha direita sobrou pouca coisa. Ronaldo Caiado e Romeu
Zema ainda não conseguiram decolar. Flávio, por sua vez, arrisca ser abatido em
voo.
O resultado desse esfarelamento está
refletido nas pesquisas. O governo de Lula 3.0 é reprovado por um percentual
maior que o dos que o aprovam, mas ele lidera as preferências eleitorais em
todas as prévias.
A direita brasileira perfilou-se diante de Jair Bolsonaro em
2018, depois do terremoto provocado pela Operação Lava-Jato. Quatro anos depois
e mais de 700 mil mortos na pandemia de Covid, uma parte considerável do voto
conservador dispensou-o. Preservando-o, arriscou-se. Mantendo-se alinhada
depois que o Supremo Tribunal Federal o encarcerou, dobrou a aposta. Acreditar
que ela continuará alinhada depois que Bolsonaro assumiu, por necessidade, a
posição de chefe de uma dinastia, exige que a aposta seja triplicada, o que
parece ser improvável. Resultado: segundo o Datafolha, em junho, 19% daqueles
que se dizem potenciais eleitores de Flávio Bolsonaro podem ser colocados à
esquerda do espectro político, e 24% estariam à direita. (Só 3% dos que
preferem Bolsonaro podem ser considerados de esquerda.) A conclusão provável é
de que um pedaço da direita (leia-se conservadorismo) migrou.
Isso já aconteceu depois que, em 1981, a tigrada explodiu
uma bomba no Riocentro, matando o sargento que a carregava no colo. Três anos
depois, a campanha das Diretas teve o apoio de luminares do conservadorismo e
até mesmo de alguns signatários do Ato Institucional nº 5, em 1968.
Lula busca essa direita. Não foi à toa que ele disse à
diretora-geral do Fundo Monetário Internacional que nunca foi esquerdista. Foi,
e sempre será, uma “metamorfose ambulante”. (Palavras suas.)
A novela da famiglia Bolsonaro reflete perplexidade e, pelo lado dos eleitores, cansaço com a polarização. O arco antipetista de 2018 formado em torno de Bolsonaro se dissolveu.
Até agora, os candidatos de uma possível terceira via não sabem o que fazer com o voto bolsonarista e já se chegou à metade de julho. Pelo andar da carruagem, o rabo continuará correndo atrás do cachorro.

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