Mercadão de emendas abre novos negócios para políticos sem
mandato
STF vê 'privatização do orçamento' em repasses operados
por Cunha e Valdemar
Eduardo Cunha foi cassado e preso, mas não largou o osso.
Sem mandato desde 2016, o ex-deputado encontrou uma nova forma de roer o
orçamento. Abocanhou emendas reservadas para parlamentares em exercício.
O contrabando foi descoberto pela Polícia Federal. Em ofício
ao Supremo, os investigadores descreveram Cunha como “beneficiário direto de
malfeitos”. O ministro Flávio Dino mandou bloquear R$ 6 milhões em bens do
ex-deputado, que nega irregularidades.
A PF cruzou dados e identificou 21 emendas
terceirizadas para Cunha. Ele destinou o dinheiro a pequenas cidades no
interior de Minas Gerais, sua nova base eleitoral. Em diálogo com uma operadora
do esquema, o fundador da Jesus.com se mostrou impaciente com prefeitos
recrutados para a barganha. “Não aguento mais esses mineiros enrolados”,
queixou-se.
O pai de Dani Cunha não está sozinho. O chefão do PL,
Valdemar Costa Neto, também se assenhorou de emendas alheias. Sem mandato desde
2013, ele destinou ao menos R$ 119 milhões a aliados. Ontem o ex-deputado
definiu a prática como a “coisa mais natural do mundo”. “Eu faço sugestão, o
líder assina se quiser”, disse à GloboNews.
Num dos casos rastreados pela PF, uma emenda de um deputado
do Rio de Janeiro pagou o cachê de uma dupla sertaneja no interior de São
Paulo. O show de Thaeme & Thiago custou R$ 280 mil. A grana foi torrada em
Guaimbê, município de 5,5 mil habitantes cuja prefeita é ligada a Valdemar.
Na última década, o Congresso avançou com fúria sobre os
cofres federais. Os parlamentares criaram regras para morder fatias cada vez
maiores do dinheiro dos impostos. A novidade é a usurpação de emendas por
políticos sem mandato.
O ministro Dino define a prática como “privatização do
orçamento público”. O Congresso criou um mercadão de emendas, em que
parlamentares passaram a se sentir livres para negociar suas cotas no varejo.
No domingo, o deputado Hugo Motta reclamou dos bloqueios e acusou o Supremo
de “tentar criminalizar a atividade política”. Pupilo de Cunha, o presidente da
Câmara conhece bem o que defende.

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