Escolha de números de urnas é muito mais do que um
recurso mnemônico para o eleitor
Num evento político no mês passado, o pré-candidato a
governador subiu no palanque improvisado de um restaurante para declarar seu
apoio a um correligionário. E afirmou: “Você será o meu candidato a deputado
federal, e a prova disso é que o seu número de urna será XYXY”, onde XY é o
número do partido deles.
Numa eleição em que centenas ou milhares de políticos se
engalfinham pelas poucas cadeiras em disputa, ter um número de urna fácil de
ser lembrado pelo eleitor é um ativo importante - ainda mais num país em que
candidatos e partidos em geral têm baixa conexão com os cidadãos.
Em 2022, 137 dos 513 deputados federais
eleitos escolheram como número de urna a repetição do algarismo do seu partido.
Foi a opção preferencial dos vencedores, o que justifica a escolha do
pré-candidato a governador para seu preferido.
Essa opção é ainda mais forte nas agremiações que já têm
como símbolo um dígito repetido. O PL é o campeão: elegeu vinte candidatos que
tinham o número 2222. Na sequência vieram o Progressistas, com 16 eleitos com o
número 1111, e o União Brasil, que fez 15 deputados 4444.
As demais siglas seguem o mesmo padrão. O 1010 é o número
mais frequente entre os eleitos do Republicanos (13 deputados), assim como o
1313 é o mais comum entre os petistas (10 eleitos) e o 1515 no MDB (8
deputados). No PDT, o 1212 foi superior até ao tentador 1234 (com o placar de 5
a 4).
Grandes nomes do Congresso seguiram essa fórmula, de Eduardo
Bolsonaro e Nikolas Ferreira (ambos 2222, um em São Paulo e outro em Minas) a
Gleisi Hoffmann e Washington Quaquá (ela no Paraná e ele no Rio, mas os dois
1313), passando por Arthur Lira (1111) e Tábata Amaral (4040).
O segundo padrão de numeração mais comum em 2022 foi o final
00, com 46 parlamentares no total. Outra predileção é o final 10, utilizado por
31 deputados eleitos.
Em tempos de polarização extrema, políticos também usam a
numeração para enviar um sinal claro para o eleitor. Assim, 28 congressistas se
valeram de um combinado entre a indicação do seu partido e o numeral 22,
associado a Jair Bolsonaro. Foi o quarto modelo mais utilizado, principalmente
por integrantes do Centrão.
Para os adeptos da numerologia, a escolha de um bom número é
receita de sucesso. De fato, os dados indicam que, no pleito de 2022,
candidatos que foram às urnas com uma numeração que repetia os dígitos de seu
partido tiveram quase 4 vezes mais chances de serem eleitos do que os seus
adversários: 19,4% daqueles que usaram números repetidos foram eleitos, contra
uma taxa geral de 4,9% do total de postulantes à Câmara dos Deputados.
Da mesma forma, quem usou números com final 10 teve o dobro
de chances de conseguir uma vaga, enquanto os de final 00 apresentaram em média
uma probabilidade 70% maior de chegar a Brasília.
Antes que alguém passe a atribuir efeitos mágicos aos
números - como analistas esportivos que se fiam na tradição e no peso da camisa
para cravar classificações - a prioridade na definição da numeração de urna é
apenas um dos privilégios que os caciques partidários concedem aos seus
correligionários preferidos.
O fator que realmente conta nas chances de ser ou não eleito
no Brasil é a distribuição de recursos dos fundos partidário e eleitoral para
os candidatos em cada diretório estadual.
Num sistema em que as eleições são disputadas em territórios
muito grandes e com tantos partidos e candidatos, larga muito na frente quem
dispõe de mais dinheiro para gastar com propaganda, cabos eleitorais e
impulsionamento de campanha em redes sociais.
Em 2022, dos 6.269 candidatos que receberam menos de R$ 100
mil de seus partidos, apenas 24 conquistaram um lugar na Câmara, numa taxa de
sucesso de 0,4%. Já entre os 38 agraciados com mais de R$ 3 milhões do fundão
eleitoral, 18 se elegeram - ou seja, desfrutaram de uma probabilidade de
vitória altíssima, de 47,4%.
Uma forma de visualizar como os caciques partidários definem
previamente quem terá mais chance de vencer a eleição é cruzar os dados da
numeração de urna com a repartição dos recursos do financiamento público de
campanhas.
Na eleição passada, os concorrentes que usaram o número do
partido duplicado (2222, 1313 e assim por diante) receberam em média R$
722.575,91 de suas agremiações. Esse montante é mais de três vezes superior ao
que ganharam os candidatos com números “normais” (média de R$ 215.456,35).
No Brasil existe uma discussão infrutífera entre os
analistas e cientistas políticos sobre as vantagens do sistema de representação
proporcional em lista aberta (adotado por nós) frente à alternativa da lista
fechada.
Quando se analisa a distribuição dos ativos eleitorais dos
partidos entre seus candidatos (fundos eleitoral e partidário, tempo na
propaganda no rádio e na TV, presença em palanques e até mesmo o número de
urna) constata-se que já vivemos um sistema de lista fechada - só que sem
transparência.
Precisamos reconhecer que, no Brasil, eleição é uma disputa
entre algumas centenas de candidatos previamente escolhidos pelos partidos e
milhares de figurantes.

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