O quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros
neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da
economia no ano que vem
Após um primeiro semestre atribulado, o cenário que se
vislumbra hoje para a economia brasileira em 2026 tem algumas diferenças
significativas em relação ao que se via há seis meses, o que deverá ter efeitos
não desprezíveis sobre o quadro que se desenha para 2027. Neste ano, o PIB
tende a crescer mais do que se imaginava no fim de 2025, avançando perto de 2%,
a inflação será mais alta, atingindo um nível um pouco acima de 5%, e os juros
deverão ficar perto de 14% ao ano - consideravelmente acima dos 12% a 12,5%
projetados em dezembro do ano passado.
O impacto do conflito no Oriente Médio
sobre os preços do petróleo pressionou as cotações de combustíveis e alimentos
(neste caso, pelo efeito sobre fretes e fertilizantes), ao mesmo tempo em que
os estímulos fiscais têm impulsionado a demanda, reduzindo o espaço para cortes
da Selic, ainda que a taxa, em 14,25% ao ano, esteja nas alturas. As incertezas
sobre as contas públicas, num ambiente de déficit nominal (incluindo gastos com
juros) elevadíssimo e dívida pública crescente, contribuem para que os juros
sigam altos.
Esse quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros
neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da
economia no ano que vem, ainda que obviamente elas tenham elevado grau de
incerteza. Bancos e consultorias têm reduzido as estimativas de expansão do PIB
para 2027, indicando que o ganhador das eleições presidenciais deste ano
assumirá com uma atividade em ritmo mais lento. O Bradesco,
por exemplo, revisou a previsão de avanço do PIB em 2027 de 2% para 1,5%, ao
mesmo tempo em que elevou a deste ano de 1,8% para 2%. A consultoria
4intelligence, por sua vez, trabalha com um número ainda mais baixo para o ano
que vem - cortou no mês passado a estimativa de 1,6% para 1,2%. Para 2026, a
4intelligence também trabalha com 2%, como o Bradesco.
O crescimento neste ano será mais forte do que se imaginava
em boa parte devido aos estímulos à economia do governo num ano eleitoral. A
4intelligence observa que várias iniciativas têm efeito significativo” sobre a
expansão do PIB em 2026, “como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de
Renda (IR), a liberação de recursos extraordinários do FGTS e a aceleração do
investimento público, da União e dos governos subnacionais, com destaque para
os Estados”, aponta a consultoria, em relatório. Como a política fiscal não
deverá repetir “o substancial impulso que vem dando à atividade econômica neste
ano eleitoral”, o PIB tende a sofrer uma desaceleração relevante em 2027, diz a
4intelligence.
Na revisão do cenário divulgada na semana passada, o Bradesco também
ressalta o impacto dos “fortes estímulos que se contrapõem à política
monetária” para explicar a avaliação de uma economia mais forte em 2026, que
levou à revisão do crescimento de 1,8% para 2%. Com uma política fiscal
expansionista, o Banco Central (BC) tem ainda mais dificuldades para reduzir os
juros, algo já complicado num cenário de pressão dos combustíveis e dos preços
de alimentos.
Com perspectivas mais favoráveis para o petróleo, após a
diminuição das tensões entre EUA e Irã, o quadro inflacionário pode ser menos
desfavorável do que se temia há algumas semanas, mas as previsões continuam a
apontar um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,5%
neste ano, distante da meta de 3% perseguida pelo BC. Além disso, um IPCA mais
alto neste ano contamina o indicador do ano que vem, por meio da inércia, o
fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura. Em 2027, o
IPCA deverá ficar acima de 4%, segundo as previsões dos economistas.
Os juros, nesse quadro, ficarão mais altos do que se
estimava na virada do ano. O Bradesco ainda
vê a Selic em 13,75% no fim de 2026, 0,5 ponto percentual abaixo do nível atual
da taxa. A 4intelligence, porém, espera que os juros continuem em 14,25% até o
fim deste ano. Com isso, “o espaço para expansão do crédito tende a permanecer
limitado” no ano que vem, “em linha com a expectativa de condução mais
conservadora da política monetária”, avalia a consultoria. É mais um dos
motivos que justificam o crescimento mais fraco da economia em 2027, ainda que
a 4intelligence tenha elevado a projeção de aumento da massa de renda de 2,7%
para 3,5%, descontada a inflação, por causa da força do mercado de trabalho. O
ponto é que, além do efeito dos juros altos sobre o crédito, “estará em curso
um processo de desalavancagem financeira das famílias”, diz a consultoria, para
quem, “diante de um nível de endividamento historicamente elevado, parcela
relevante do aumento de renda será direcionada à amortização de dívidas, em
detrimento do consumo”.
A desaceleração da atividade em 2027 deverá diminuir a
pressão da demanda sobre os preços, o que pode ajudar a abrir espaço para um
ciclo de queda um pouco mais intenso dos juros, à medida que o ano avance. No
entanto, para que a Selic possa cair para níveis mais baixos, algo urgente num
país em que muitas empresas e famílias estão endividadas e o setor público tem
despesas financeiras pesadíssimas, será fundamental que o presidente eleito
neste ano enfrente de fato o desequilíbrio das contas públicas, com um ajuste
concentrado no lado das despesas. Se isso for feito, haverá uma redução dos
estímulos do governo à economia e uma melhora da percepção de risco fiscal do
país. Não é algo fácil do ponto de vista político, mas é essencial para que a
Selic e os juros de longo prazo possam recuar mais e para o câmbio ficar
valorizado, contribuindo para o controle da inflação.

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