Os Bolsonaros estão conseguindo manter acesa a campanha
eleitoral para a Presidência da República em torno de seus problemas
Em política há uma máxima que diz que o importante é estar
no centro da discussão, não necessariamente vencê-la. É uma vertente maximizada
daquela outra máxima: “falem mal, mas falem de mim”. Menos glamurosa que a de
Ferreira Gullar:
— Não quero ter razão, quero é ser feliz.
É mais que isso. É controlar o debate político, como fazem
os grandes armadores dos times de futebol, que ditam o ritmo do jogo, aceleram
ou desaceleram as jogadas de acordo com o interesse do seu time. Pois os
Bolsonaros estão controlando a campanha eleitoral para a Presidência da
República, conseguindo mantê-la acesa em torno de seus problemas, de suas
questões, transformando brigas familiares em tema de debate político que inunda
as redes sociais e as conforma em nichos da direita, dando pouco espaço para a
esquerda se expandir.
Pode ser que as próximas pesquisas
eleitorais mostrem que a queda do senador Flávio Bolsonaro é inexorável, e que
a estratégia não deu certo. Mas, até agora, está funcionando, ele aparece como
competitivo no segundo turno. À falta do carisma do personagem principal, o
ex-presidente Jair Bolsonaro, seu fantoche, vai se movendo à sua sombra,
passando ao eleitor uma imagem política frágil que, paradoxalmente, fortalece o
significado final, que é a volta ao poder do ex-presidente por meio de seu
avatar.
Vejamos o caso da carta que Jair escreveu aos eleitores
reafirmando que o filho Flávio é o seu único representante na corrida
presidencial. Foi um golpe astucioso, pois não quebrou as regras da prisão
preventiva literalmente, embora as tenha quebrado efetivamente. O ministro
Alexandre Moraes saiu-se bem da armadilha. Se tivesse devolvido Bolsonaro pai
para a Papuda, corria o risco de ver sua saúde piorar e tornar-se o “assassino
espiritual” do líder popular da direita brasileira, com repercussão
internacional. Tanto que preferiu punir o candidato, privando-o dos conselhos
do pai por 90 dias. Teoricamente, terá de disputar debates eleitorais e
enfrentar as urnas eletrônicas no primeiro turno sem a orientação direta do
pai. Claro que receberá instruções por interpostas pessoas, mas perderá o calor
humano do apoio de seu mentor.
O que está em disputa hoje, no entanto, é diferente do que
aconteceu em 2018, quando Fernando Haddad entrou na última hora na disputa
presidencial no lugar de Lula. Até mesmo máscaras de Lula foram fabricadas para
a derradeira tentativa de ligar o nome de Haddad à pessoa de Lula. Já o senador
Flávio Bolsonaro não precisa disso. Tem o sobrenome a sustentá-lo, uma segunda
pele a lembrar ao eleitor que quem está ali é o pai, não o candidato. Essa
duplicidade faz com que fique mais restrita a possibilidade de ampliar o
eleitorado para o centro, pois a imagem de Flávio como um “Bolsonaro vacinado”
vai se esvaindo com o passar do tempo, e fica a do pai, que sustenta a votação
da direita a favor do filho.
Assim como lutar contra Lula já foi uma inutilidade, diante
da imagem icônica que já teve, hoje tentar destruir Flávio parece inútil diante
da marca Bolsonaro impressa em sua testa. Votar em Flávio vai muito além de
votar na extrema direita, é votar pela anistia de Jair, é apoiar sua volta à
política para manipular o filho; assim como Lula manipularia Dilma se tivesse
sido nomeado chefe do Gabinete Civil, manobra que o ministro Gilmar Mendes
inviabilizou na época em que ainda era lavajatista.
O presidente Lula envia sinais contraditórios para o
eleitorado que decidirá as eleições, segundo os analistas de pesquisas.
Pretenderia reeditar o candidato da união nacional, com um programa econômico
mais equilibrado, que permita ao país sair desse crescimento medíocre de 2% ao
ano. Já o avatar Flávio procura um nome de peso para ser o seu “posto
Ipiranga”, mas está difícil encontrar quem se disponha a isso. Esses dois
movimentos podem ser os definitivos para arrebanhar votos no centro
democrático.

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