Os Estados Unidos estão sendo injustos com o Brasil. Parte
das novas tarifas aplicadas a nossas exportações é baseada em acusações falsas.
O país combate o trabalho escravo e reduz o desmatamento. Aqui foi aplicada a
lógica do lobo e do cordeiro. Se não somos nós os culpados, então foram os
nossos primos.
Num momento como este, muitos falam em retaliação. É uma
reação emocionalmente compreensível. Mas, pensando bem, é possível encontrar
uma solução melhor. Ela seria um grande projeto de união nacional para que a
gente desenvolva capacidade real de retaliar. Você pode chamar isso de
soberania, mas não deve confundi-la com os gritos de soberania nos comícios
eleitorais.
Na verdade, é algo mais profundo que, em alguns casos,
implica décadas de esforço contínuo, independentemente da troca de governos. É
preciso, para começar, uma política para incentivar as exportações, que
transcenda o puro financiamento. Isso implica maior abertura.
No campo da soberania digital, é preciso um trabalho de
décadas. A política chinesa data de 1988 e parte da concepção de que a internet
deve ser governada pelo próprio país. É um modelo difícil de replicar porque a
China começou por criar uma “Great Firewall”, bloqueando Google, WhatsApp,
Instagram, enfim, todas as plataformas.
Não é esse nosso caminho. Muito menos nosso estágio. No
momento, o Brasil desenvolve um sistema de mensagens para uso do governo. É um
trabalho conjunto da Abin, do Serpro e da Universidade Federal do Ceará. Para
pensar em algo amplo, será necessário construir uma infraestrutura de data
centers, rede de telecomunicações e criptografia nacional. Isso para mencionar
apenas alguns itens essenciais.
Ao contrário da China, um aplicativo nacional teria de
atrair os usuários numa competição direta com as redes. Isso depende muito de
coerção regulatória. Mas a existência de uma infraestrutura nacional traria um
escudo contra boicotes externos. Hoje, se o WhatsApp deixasse de funcionar no
Brasil, os prejuízos seriam grandes para a economia do país.
Outro campo em que poderemos retaliar no futuro são os
minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos. No
momento, americanos em Goiás e australianos em Minas extraem terras-raras.
Ainda não há como retaliar. No caso do nióbio, o Brasil é o país dominante.
Temos cerca de 90% da produção mundial e aproximadamente 95% das reservas
globais. Aí está uma possibilidade que, combinada a outras, daria ao país uma
chance de encarar com altivez as injustiças que sofre. No momento, é importante
proteger os exportadores atingidos e formular uma política de longo prazo que
reduza os impasses no comércio exterior.
A conjuntura é negativa. Os Estados Unidos governam a
Venezuela por meio de um vice-rei, Marco Rubio. Arrecadam o dinheiro do
petróleo e repassam parte aos ditadores como se fosse a mesada de adolescentes.
Os resultados eleitorais recentes no Chile, no Peru e na Colômbia mostram que o
continente tende a isolar o Brasil, com aliados de Trump por todos os lados.
Nesse contexto tão especial, seria interessante buscar o
maior nível possível de unidade nacional em torno de um projeto de longo
alcance. Não temos tempo para bobagens, e as eleições, infelizmente, parecem
produzi-las em grande escala.
Artigo publicado no jornal O Globo em 28 / 07 / 2026

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