Sem apoio do Centrão e sem discurso próprio, Flávio
Bolsonaro aposta em Trump, Milei e Netanyahu para disfarçar a fragilidade de
uma candidatura que só existe pelo sobrenome do pai
Um desavisado poderia imaginar que o candidato do PL à
Presidência da República é Javier Milei, tamanho o protagonismo do presidente
argentino na convenção do partido destinada a consagrar Flávio Bolsonaro.
Pudera: sem nada a oferecer ao eleitor além do sobrenome de seu pai, Flávio
revelou seu verdadeiro tamanho no evento: minúsculo, sem apoio dos principais
partidos do Centrão, o senador socorreu-se da “direita internacional” – o
argentino Milei, o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu – e
de um avatar de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial para dar
algum sentido à sua candidatura.
Por quase meia hora, Milei, ao lado de um embevecido Flávio,
atacou aos gritos e palavrões o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Temos muitas
razões para criticar ambos, mas é preciso fazê-lo com um mínimo de civilidade –
mais ainda quando a crítica parte de um chefe de Estado, como Milei, e no
momento em que esse chefe de Estado estava no Brasil.
No entanto, Milei representa como poucos essa vertente
política direitista que faz da falta de vergonha e da insolência institucional
seus principais ativos políticos. Flávio Bolsonaro, como candidato a presidente
de todos os brasileiros, e não somente daqueles que urraram a cada palavrão
proferido pelo presidente argentino, deveria ter evitado esse espetáculo
constrangedor que nada de bom produz para o País. Mas o senador, em razão de
sua própria insignificância, está cada vez mais à mercê de forças que não
controla, numa campanha que começa a apostar no ultraje para impulsionar suas
chances de vitória.
Além disso, é digna de repúdio a sem-cerimônia com que
Flávio atrelou seu destino como candidato a atores externos, como Milei e
Trump. Cada vez mais impopular na Argentina, em razão da dureza de suas medidas
econômicas e de um escândalo de corrupção, Milei veio ao Brasil não para apoiar
Flávio, mas para criar um incidente que o colocasse nas manchetes. Conseguiu.
O caso de Trump é ainda mais perigoso. O presidente
americano não disfarça seu interesse em se intrometer nas eleições brasileiras,
com o objetivo de instalar no Palácio do Planalto um títere para impulsionar
seu projeto de converter a América Latina em seu quintal.
Soube-se pela imprensa americana que Trump queria enviar
representantes seus para o Brasil para disseminar suspeitas sobre nosso sistema
eleitoral. O governo brasileiro negou-lhes o visto e, como esperado,
capitalizou o caso politicamente, o que mostra a toxicidade de uma associação
com Trump. Como revelou uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana, 52%
dos eleitores acreditam que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA às
exportações brasileiras é uma manobra para beneficiar a candidatura de Flávio.
Ou seja, a maioria do eleitorado já enxerga no prejuízo econômico imposto ao
País um benefício a um candidato que só existe como tal para resgatar o
“legado” do pai – e nada mais.
O patriotismo proclamado por Flávio é, portanto, mais uma
das farsas do bolsonarismo, cujo objetivo é transformar o Brasil em vassalo dos
EUA de Trump.
Para piorar, tal comportamento joga água no moinho da
campanha de Lula, que se refestela como protetor da “soberania” brasileira ante
os ataques externos – das tarifas de Trump festejadas pelos bolsonaristas ao
comportamento delinquente de Javier Milei em solo brasileiro. O mesmo Lula que
outrora alinhou o Brasil ao bolivarianismo chavista, ao peronismo kirchnerista
e à nostalgia castrista de Cuba agora posa de herói da Pátria contra o
entreguismo de Flávio.
Eis aí o legado da família Bolsonaro ao Brasil: dar a um
presidente medíocre, com ideias envelhecidas e sem projeto de futuro para o
País, como Lula, a chance real de permanecer mais quatro anos no poder.
Imperdoável.
Terminada a convenção do PL, ficou claro que falta a Flávio
o que nenhuma ferramenta de inteligência artificial jamais será capaz de gerar:
credibilidade moral, história política independente, compromisso com a
democracia e um eleitorado que o siga por convicção, não por imposição. Até lá,
o PL terá um avatar mal ajambrado de Jair Bolsonaro como seu candidato a
presidente.

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