terça-feira, 28 de julho de 2026

UM CANDIDATO NANICO

Editorial O Estado de S.Paulo

Sem apoio do Centrão e sem discurso próprio, Flávio Bolsonaro aposta em Trump, Milei e Netanyahu para disfarçar a fragilidade de uma candidatura que só existe pelo sobrenome do pai

Um desavisado poderia imaginar que o candidato do PL à Presidência da República é Javier Milei, tamanho o protagonismo do presidente argentino na convenção do partido destinada a consagrar Flávio Bolsonaro. Pudera: sem nada a oferecer ao eleitor além do sobrenome de seu pai, Flávio revelou seu verdadeiro tamanho no evento: minúsculo, sem apoio dos principais partidos do Centrão, o senador socorreu-se da “direita internacional” – o argentino Milei, o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu – e de um avatar de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial para dar algum sentido à sua candidatura.

Por quase meia hora, Milei, ao lado de um embevecido Flávio, atacou aos gritos e palavrões o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Temos muitas razões para criticar ambos, mas é preciso fazê-lo com um mínimo de civilidade – mais ainda quando a crítica parte de um chefe de Estado, como Milei, e no momento em que esse chefe de Estado estava no Brasil.

No entanto, Milei representa como poucos essa vertente política direitista que faz da falta de vergonha e da insolência institucional seus principais ativos políticos. Flávio Bolsonaro, como candidato a presidente de todos os brasileiros, e não somente daqueles que urraram a cada palavrão proferido pelo presidente argentino, deveria ter evitado esse espetáculo constrangedor que nada de bom produz para o País. Mas o senador, em razão de sua própria insignificância, está cada vez mais à mercê de forças que não controla, numa campanha que começa a apostar no ultraje para impulsionar suas chances de vitória.

Além disso, é digna de repúdio a sem-cerimônia com que Flávio atrelou seu destino como candidato a atores externos, como Milei e Trump. Cada vez mais impopular na Argentina, em razão da dureza de suas medidas econômicas e de um escândalo de corrupção, Milei veio ao Brasil não para apoiar Flávio, mas para criar um incidente que o colocasse nas manchetes. Conseguiu.

O caso de Trump é ainda mais perigoso. O presidente americano não disfarça seu interesse em se intrometer nas eleições brasileiras, com o objetivo de instalar no Palácio do Planalto um títere para impulsionar seu projeto de converter a América Latina em seu quintal.

Soube-se pela imprensa americana que Trump queria enviar representantes seus para o Brasil para disseminar suspeitas sobre nosso sistema eleitoral. O governo brasileiro negou-lhes o visto e, como esperado, capitalizou o caso politicamente, o que mostra a toxicidade de uma associação com Trump. Como revelou uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana, 52% dos eleitores acreditam que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA às exportações brasileiras é uma manobra para beneficiar a candidatura de Flávio. Ou seja, a maioria do eleitorado já enxerga no prejuízo econômico imposto ao País um benefício a um candidato que só existe como tal para resgatar o “legado” do pai – e nada mais.

O patriotismo proclamado por Flávio é, portanto, mais uma das farsas do bolsonarismo, cujo objetivo é transformar o Brasil em vassalo dos EUA de Trump.

Para piorar, tal comportamento joga água no moinho da campanha de Lula, que se refestela como protetor da “soberania” brasileira ante os ataques externos – das tarifas de Trump festejadas pelos bolsonaristas ao comportamento delinquente de Javier Milei em solo brasileiro. O mesmo Lula que outrora alinhou o Brasil ao bolivarianismo chavista, ao peronismo kirchnerista e à nostalgia castrista de Cuba agora posa de herói da Pátria contra o entreguismo de Flávio.

Eis aí o legado da família Bolsonaro ao Brasil: dar a um presidente medíocre, com ideias envelhecidas e sem projeto de futuro para o País, como Lula, a chance real de permanecer mais quatro anos no poder. Imperdoável.

Terminada a convenção do PL, ficou claro que falta a Flávio o que nenhuma ferramenta de inteligência artificial jamais será capaz de gerar: credibilidade moral, história política independente, compromisso com a democracia e um eleitorado que o siga por convicção, não por imposição. Até lá, o PL terá um avatar mal ajambrado de Jair Bolsonaro como seu candidato a presidente.

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