quarta-feira, 29 de julho de 2026

PERFIL BIOGRÁFICO

Luiz Lima, via Facebook

A Trajetória do Líder Político de Mucambo José Cláudio de Araújo: 1895-1976

Texto publicado em 29 / 07 / 2022

BIOGRAFIA DE JOSÉ CLÁUDIO DE ARAÚJO

O senhor Francisco de Araújo Manso e a senhora Justina Cláudio de Araújo eram fazendeiros abastados, proprietários de terra e pecuaristas que viviam próximos aos limites de Mucambo, entre as terras de Arariús, em Cariré, onde passavam o período de chuvas, de janeiro a junho, e Olho D’água, atual Rafael Arruda, em Sobral, lugar de moradia do casal no período de estiagem, de julho a dezembro.

Foi nesta localidade de Olho D’água, na Fazenda Santa Úrsula, em uma casa grande, perto do Açude Velho, no dia sete de julho de 1895, domingo, que José Cláudio de Araújo nasceu para a alegria de seus pais. A família era grande, formada por doze filhos, cinco homens e sete mulheres, e ao lado de José Cláudio cresceram os irmãos: Teldulinda Cláudio de Araújo, Jenuvina Cláudio de Araújo, Antônio Cláudio de Araújo, Raphael Cláudio de Araújo, Inácio Cláudio de Araújo, Antônia Cláudio de Araújo, Mariana Cláudio de Araújo, Maria Cláudio de Araújo, Luzia Cláudio de Araújo, João Cláudio de Araújo e Joaquina Cláudio de Araújo.

Desde cedo, como todos os seus outros onze irmãos, começou a ajudar seu pai na lida e nos negócios que envolviam a agricultura e a pecuária da fazenda. Entretanto, isso não lhe tirou a pouca oportunidade que teve de aprender as letras e as contas, afinal, naquela época, ler e escrever era luxo, principalmente para os moradores do interior do estado, vítimas da ausência de escolas. Mesmo diante dessa realidade, seus pais sabiam que a educação de seus filhos devia ser prioridade para o sucesso deles, pois competência para o trabalho já era uma virtude garantida.

Dona Justina e seu Chico Manso, assim conhecidos, também zelavam muito pela fé e, por isso, além de seu exemplo moral copiado pelos filhos, eles tinham a preocupação de engajá-los na formação cristã, sempre respeitando os costumes e as tradições da religião católica. Foi neste ambiente de ensinamentos, de respeito e harmonia familiar no interior do sertão da zona norte que José Cláudio cresceu.

Da adolescência para a vida adulta, aventureiro como os demais rapazes de sua idade, andava pelos lugarejos próximos a sua moradia, às vezes para negociar, às vezes à procura de diversão. E foi em uma dessas aventuras, em um distrito localizado no sopé da Serra da Ibiapaba, pertencente a Ibiapina, conhecido como Mocambo, que o jovem conheceu aquela que viria a ser a sua esposa, seu grande e único amor.

Mucambo, na década de 1910, ainda em desenvolvimento, já era motivo de orgulho para sua sede, pois sua população estava em expansão e a agricultura e o comércio estavam cada dia se fortalecendo. Aqui, já estavam morando desde as últimas décadas do século XIX, os irmãos fazendeiros Lourenço de Aquino Lima – falecido em 1922 - e Serafim de Aquino Lima - falecido em 1925 - muito conhecidos pelo sobrenome Pereira, pelo fato de serem imigrantes de um sítio denominado Maria Pereira, onde nasceram entre as décadas de 1840 e 1850.

Os irmãos, com muito esforço, trabalhando na agricultura e na pecuária, conseguiram acumular muitos hectares de terra, o que lhes deu autoridade e domínio territorial, dando a Lourenço Pereira o título de Major, designação comum, na época, àqueles que se destacavam pela aquisição de muitos bens, como fazendas, rebanhos, engenhos e prestígio religioso.

O então Major Lourenço Pereira e sua esposa Conceição Azevedo Lima tiveram filhos, entre eles: José Teodoro Lima, Lino Pereira Lima, Maria Senhora Pereira da Conceição, Francisca Pereira Lima, Maroca Pereira Lima e o mais novo Ângelo Francisco de Azevedo que nasceu em 1879 e faleceu em vinte e oito de fevereiro de 1921, aos quarenta e dois anos.

Ângelo Francisco de Azevedo casou-se com Joana Francisca de Azevedo – nascida em 1884 e falecida em sete de junho de 1934, aos cinquenta anos - e tiveram os filhos: Maria Azevedo Aguiar, Francisca Azevedo Araújo (nome de registro civil de casamento com José Cláudio de Araújo), João Azevedo Aguiar, Antônio Azevedo Aguiar, Abdoral Azevedo Aguiar, Alfredo Azevedo Aguiar e Raimundo Azevedo Aguiar. Com a morte do seu marido, Ângelo Francisco de Azevedo, e ainda nova, a senhora Joana Francisca de Azevedo casou-se com o senhor José de Oliveira Freire, dando à luz o único filho do casal, o senhor Francisco Rodrigues Freire, constituindo, assim, uma segunda família.

Mas foi a filha do casal Ângelo e Joana, a senhora Francisca Azevedo Araújo, nascida em onze de outubro de 1907, em uma sexta-feira, que encantou o jovem José Cláudio. Fransquinha, assim conhecida e tratada pela família, era muito querida pelo avô Lourenço Pereira, vivendo mais com ele do que com seus pais. O avô tinha um zelo muito forte pela neta que se dedicava aos afazeres domésticos.

Porém, a vida da menina mudou quando encontrou aquele que se tornaria seu futuro marido. Apaixonados, eles apressadamente falaram em casamento, o que assustou seu avô Lourenço que a achava muito nova para constituir uma família. Apesar da resistência do avô, o amor foi mais forte, e eles trataram, sem demora, de se casar na igreja no dia doze de junho de 1920, ela ainda faltando quatro meses para completar treze anos de idade e ele próximo dos vinte e cinco.

Após o casamento, fixaram morada em Mucambo. Tinham uma vida simples, ela dedicava-se à casa, e ele, já com experiência nos negócios, trabalhava no comércio, um armazém que atendia ao consumo das famílias locais, e além disso, comprava e vendia produtos agrícolas, fonte de renda da maioria da população que era predominantemente rural.

Com o tempo, os filhos começaram a nascer e juntos tiveram dezesseis filhos: Ângelo Azevedo Araújo, o primogênito que recebeu o nome do avô materno, uma homenagem da mãe. Este formou-se em medicina e foi o primeiro médico da cidade, atendendo a carência de profissionais de saúde no município, comum na época. Faleceu aos noventa e dois anos em Fortaleza no ano 2017.

Depois vieram a senhora Fabíola, falecida aos sessenta anos, o senhor Gerardo Azevedo Araújo, que com a emancipação de Mucambo em doze de dezembro em 1953, candidatou-se a prefeito e foi eleito em três de outubro de 1954 pelo PSD. Contudo, perto de completar seu mandato de prefeito e já candidato a deputado estadual, foi assassinado em onze de agosto de 1958 por seu opositor na política, Francisco Antônio de Sousa, conhecido como Chico Antônio e enfermeiro do posto de saúde da cidade.

O quarto filho foi o senhor Mauro Azevedo Araújo, engenheiro civil, que faleceu aos 82 anos. Em seguida, nasceram Ivone Araújo Chaves, viva com 92 anos, Terezinha Araújo Rodrigues, ex-diretora da Escola Estadual de Ensino Médio José Cláudio de Araújo de 1959 a 1980, está viva com 90 anos, Zenaide Araújo Brandão, também foi diretora da E.E.M José Cláudio de Araújo nos anos de 1957 e 1958 e já é falecida, Socorro Araújo Vasconcelos, já falecida, Diva Araújo Gondim, esposa do senhor Gumercindo Ramalho Gondim, eleito vice-prefeito nas eleições de 1962 pelo PSD e cunhado do saudoso Gerardo Azevedo Araújo.

O décimo filho foi Raimundo Nonato Azevedo Araújo que se candidatou a prefeito nas eleições de 1976 pelo MDB e foi vencido por Alberto de Sousa Melo da ARENA, encerando a participação da família na política. Posteriormente, vieram Tarcísio Azevedo Araújo, já falecido, Vilma Araújo Coelho, Fátima Azevedo Araújo, falecida aos 4 anos de idade, Rita Célia Azevedo Araújo de Medeiros, hoje com setenta e seis anos, Francisco José Azevedo Araújo e Josefina Azevedo Araújo.

Com suas habilidades natas, Zé Manso, como era chamado pela população, começou a se destacar como um comerciante de sucesso, acumulando um patrimônio que lhe deu as condições necessárias para dar uma vida confortável e formação aos filhos. Sua competência e seu caráter, também, chamaram a atenção do povo, que passou a admirá-lo como um político influente. Sua liderança agregou aliados que o enxergavam como um homem empreendedor e comprometido com a evolução política do então distrito de Mucambo.

Nas eleições de 1945 para presidente da república, o líder político apoiou ativamente o General Eurico Gaspar Dutra que foi eleito para presidente do Brasil, com mandato de 1946 a 1950. Nas eleições de 1947, como chefe da legenda do PSD, apoiou o general Onofre Muniz Gomes de Lima para governador do estado do Ceará, porém este perde as eleições para seu adversário, o desembargador Faustino de Albuquerque, da UDN.

Mas isso não o desanima, pois seu irmão, Raphael Cláudio de Araújo, grande empresário da produção de banha de porco e lançado pelo PSD a vereador de Ibiapina, é eleito com 297 votos. Nesta mesma eleição, Napoleão Neri de Aguiar, um comerciante rico, nascido em Tianguá e residente na cidade desde 1908, também se candidata a vereador e é eleito com 275 votos pela UDN. O primeiro aceno foi dado para a emancipação de Mucambo.

Traçando planos para Mucambo, os irmãos Raphael Cláudio e José Cláudio, assim como os irmãos Lourenço Pereira e Serafim de Aquino que desejavam o desenvolvimento do distrito de Mucambo, deram o segundo passo para a independência política da cidade: a candidatura de Raphael Cláudio para prefeito de Ibiapina nas eleições de 1950.

Com a vitória de Raphael Cláudio de Araújo pelo PSD e o apoio da Paróquia de Nossa Senhora Santana, recém-instalada aqui em primeiro de janeiro de 1951 e representada pelo primeiro vigário da cidade, Padre Domingos Gusmão de Saboia, religioso com forte influência espiritual e política, o sonho de emancipação de Mucambo tornou-se realidade em 12 de dezembro de 1953. Como resultado, em 1954, houve eleições, e pelo mesmo partido, o sr. José Cláudio de Araújo candidata-se a vereador e lança seu filho, Gerardo Azevedo Araújo, a prefeito de Mucambo.

Com a vitória de ambos, veio o desafio de trazer para o povo mucambense o desenvolvimento e, trabalhando ao lado do filho na câmara de vereadores, tratou com empenho de aprovar projetos que viabilizassem os desejos da população, principalmente do acesso a água potável, reivindicação antiga e atendida com a inauguração do açude Ibiapina, atual Antônio Portela Aguiar, em 1957.

Nas eleições de 1958 e final de mandato como vereador, apoiou a candidatura do filho a deputado estadual, do irmão Raphael Cláudio de Araújo a prefeito, do senhor Parsival Barroso a governador do estado e do senhor Expedito Machado a deputado federal, todos pela coligação PSD, PTB e PRP. A vitória seria completa se uma tragédia não tivesse acontecido: o assassinato do seu filho Gerardo. Isto marcou para sempre a vida do líder político, frustrando seus projetos e sufocando seu orgulho paternal.

Esse terrível momento que lhe causou um grande abalo não o fez parar, mas refletir e continuar na missão, pois depois de quatro anos, nas eleições de 1962, manifestava seu apoio à candidatura de Gumercindo Ramalho Gondim, seu genro, a vice-prefeito, alcançando um total de 1.144 sufrágios, mais votos que o prefeito eleito Francisco Chagas Lopes, com 1.105, já que naquela época prefeito e vice eram votados separadamente. Ou seja, caso fosse candidato a prefeito, Gumercindo teria sido vitorioso.

Novamente, nas eleições de 1966, volta a concorrer, desta vez como candidato a prefeito pela ARENA 2, mas, agora, em oposição ao seu irmão Raphael Cláudio de Araújo da ARENA 1. Não se sabe exatamente o motivo que levou o rompimento da aliança entre os dois naquele cenário político de Mucambo, ainda marcado pela fatalidade do 11 de agosto de 1958 que chocou famílias e causou grande comoção entre os cidadãos. Contudo, os irmãos mantiveram a paz e o respeito entre si. No final, seu irmão é eleito com uma vantagem de 204 votos.

Com setenta e um anos, seu vigor já não era o mesmo, passaram-se os anos e agora restava-lhe, junto a sua querida Fransquinha, seus filhos, noras, genros e netos, desfrutar das conquistas e compartilhar com a família o que cultivou como cidadão, cristão, político e esposo: o respeito, a fé, a honestidade e a amizade. Estas foram as virtudes que mais zelou em vida, patrimônio indissolúvel, seu maior legado que será sempre lembrado por seus parentes, amigos e correligionários.

Ainda vivendo em Mucambo com a esposa, nos anos de 1970, José Cláudio de Araújo continuava com sua vida simples, sempre rodeado da família. Nas eleições de 1976, seu filho, Raimundo Nonato Azevedo Araújo, decide se candidatar a prefeito pelo MDB e é vencido pelo seu opositor. Antes mesmo que ocorressem as eleições em 15 de novembro, já apresentando um estado de saúde frágil e levado a Fortaleza para tratamento, o sr. Zé Manso falece no dia vinte e cinco de agosto de 1976, aos oitenta e um anos. Segundo comentários da época, antes de morrer, pediu para ser enterrado na cidade onde viveu, trabalhou e construiu laços, talvez para ficar próximo do filho que admirava e que tão cedo partiu, interrompendo seu sonho político, entretanto, foi sepultado no cemitério Parque da Paz em Fortaleza.

Comovida pela morte do companheiro e já morando em Fortaleza, a senhora Francisca Azevedo Araújo, a dona Fransquinha, começa a apresentar complicações de saúde e após dois anos e meio da morte do marido, falece no dia vinte e seis de fevereiro de 1979 aos setenta e um anos. Foi enterrado ao lado do marido no cemitério Parque da Paz. Finda-se, aqui, a trajetória do casal que entrou para a história de Mucambo!

Hoje, em sua memória, há uma Escola Estadual de Ensino Médio - cumprimento do Decreto 12.685, D.O de 17/02/1978 da Secretaria de Educação do Estado - localizada na rua central da cidade que também recebe seu nome, homenagem prestada pelo vereador Hamilton Azevedo no ano de 1994, e onde, situava-se a residência de José Cláudio de Araújo, sua morada enquanto viveu em Mucambo.

Luiz Renato Aguiar Lima

FONTES DE PESQUISA

IMPRESSAS:

• Braga, Solon de Castro. O Linchamento de Chico Antônio no Contexto Social e Político de Mucambo – 1950 -1958, Sobral, 2019.

• Fotografias;

• Gomes, Nonato. Prefeitos de Mucambo, 1954 – 2020. 67 Anos de Realizações.

• Sousa, Francisco das Chagas. Biografia de Serafim Pereira Lima (Serafim de Aquino) Um dos fundadores de Mucambo, Mucambo, 2010.

• _______. Biografia de Lourenço Pereira.

• _______. Biografia de Raphael Cláudio de Araújo.

• _______. Biografia de Gerardo Azevedo Araújo.

ORAIS:

• Entrevista com Iraldice Freire Duarte – Professora municipal aposentada.

• Entrevista com Socorro Azevedo Lima – Professora estadual, 66 anos, aposentada.

• Entrevista com Lourenço Teodoro Lima – Agricultor aposentado, Filho de José Teodoro Lima e neto de Lourenço Pereira.

• Entrevista com a dra. Lucilene Rodrigues Pontes – Farmacêutica, neta de José Cláudio de Araújo.

• Entrevista com Rita Célia A. A. de Medeiros – Aposentada, 76 anos, filha de José Cláudio de Araújo.

• Entrevista com Antônia Lurdes Silva – Amiga da família.

VIRTUAL:

• https://www.tre-ce.jus.br

• Contato via Messenger com Ângela Márcia Araújo – Filha de Ângelo Azevedo Araújo e neta de José Cláudio de Araújo.

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