A Trajetória do Líder Político de Mucambo José Cláudio de Araújo: 1895-1976
Texto publicado em 29 / 07 / 2022
BIOGRAFIA DE JOSÉ CLÁUDIO DE ARAÚJO
O senhor Francisco de Araújo Manso e a senhora Justina
Cláudio de Araújo eram fazendeiros abastados, proprietários de terra e
pecuaristas que viviam próximos aos limites de Mucambo, entre as terras de
Arariús, em Cariré, onde passavam o período de chuvas, de janeiro a junho, e
Olho D’água, atual Rafael Arruda, em Sobral, lugar de moradia do casal no
período de estiagem, de julho a dezembro.
Foi nesta localidade de Olho D’água, na Fazenda Santa
Úrsula, em uma casa grande, perto do Açude Velho, no dia sete de julho de 1895,
domingo, que José Cláudio de Araújo nasceu para a alegria de seus pais. A
família era grande, formada por doze filhos, cinco homens e sete mulheres, e ao
lado de José Cláudio cresceram os irmãos: Teldulinda Cláudio de Araújo,
Jenuvina Cláudio de Araújo, Antônio Cláudio de Araújo, Raphael Cláudio de
Araújo, Inácio Cláudio de Araújo, Antônia Cláudio de Araújo, Mariana Cláudio de
Araújo, Maria Cláudio de Araújo, Luzia Cláudio de Araújo, João Cláudio de
Araújo e Joaquina Cláudio de Araújo.
Desde cedo, como todos os seus outros onze irmãos, começou a
ajudar seu pai na lida e nos negócios que envolviam a agricultura e a pecuária
da fazenda. Entretanto, isso não lhe tirou a pouca oportunidade que teve de
aprender as letras e as contas, afinal, naquela época, ler e escrever era luxo,
principalmente para os moradores do interior do estado, vítimas da ausência de
escolas. Mesmo diante dessa realidade, seus pais sabiam que a educação de seus
filhos devia ser prioridade para o sucesso deles, pois competência para o
trabalho já era uma virtude garantida.
Dona Justina e seu Chico Manso, assim conhecidos, também
zelavam muito pela fé e, por isso, além de seu exemplo moral copiado pelos
filhos, eles tinham a preocupação de engajá-los na formação cristã, sempre
respeitando os costumes e as tradições da religião católica. Foi neste ambiente
de ensinamentos, de respeito e harmonia familiar no interior do sertão da zona
norte que José Cláudio cresceu.
Da adolescência para a vida adulta, aventureiro como os
demais rapazes de sua idade, andava pelos lugarejos próximos a sua moradia, às
vezes para negociar, às vezes à procura de diversão. E foi em uma dessas
aventuras, em um distrito localizado no sopé da Serra da Ibiapaba, pertencente
a Ibiapina, conhecido como Mocambo, que o jovem conheceu aquela que viria a ser
a sua esposa, seu grande e único amor.
Mucambo, na década de 1910, ainda em desenvolvimento, já era
motivo de orgulho para sua sede, pois sua população estava em expansão e a
agricultura e o comércio estavam cada dia se fortalecendo. Aqui, já estavam
morando desde as últimas décadas do século XIX, os irmãos fazendeiros Lourenço
de Aquino Lima – falecido em 1922 - e Serafim de Aquino Lima - falecido em 1925
- muito conhecidos pelo sobrenome Pereira, pelo fato de serem imigrantes de um
sítio denominado Maria Pereira, onde nasceram entre as décadas de 1840 e 1850.
Os irmãos, com muito esforço, trabalhando na agricultura e
na pecuária, conseguiram acumular muitos hectares de terra, o que lhes deu
autoridade e domínio territorial, dando a Lourenço Pereira o título de Major,
designação comum, na época, àqueles que se destacavam pela aquisição de muitos
bens, como fazendas, rebanhos, engenhos e prestígio religioso.
O então Major Lourenço Pereira e sua esposa Conceição
Azevedo Lima tiveram filhos, entre eles: José Teodoro Lima, Lino Pereira Lima,
Maria Senhora Pereira da Conceição, Francisca Pereira Lima, Maroca Pereira Lima
e o mais novo Ângelo Francisco de Azevedo que nasceu em 1879 e faleceu em vinte
e oito de fevereiro de 1921, aos quarenta e dois anos.
Ângelo Francisco de Azevedo casou-se com Joana Francisca de
Azevedo – nascida em 1884 e falecida em sete de junho de 1934, aos cinquenta
anos - e tiveram os filhos: Maria Azevedo Aguiar, Francisca Azevedo Araújo
(nome de registro civil de casamento com José Cláudio de Araújo), João Azevedo
Aguiar, Antônio Azevedo Aguiar, Abdoral Azevedo Aguiar, Alfredo Azevedo Aguiar
e Raimundo Azevedo Aguiar. Com a morte do seu marido, Ângelo Francisco de
Azevedo, e ainda nova, a senhora Joana Francisca de Azevedo casou-se com o
senhor José de Oliveira Freire, dando à luz o único filho do casal, o senhor
Francisco Rodrigues Freire, constituindo, assim, uma segunda família.
Mas foi a filha do casal Ângelo e Joana, a senhora Francisca
Azevedo Araújo, nascida em onze de outubro de 1907, em uma sexta-feira, que
encantou o jovem José Cláudio. Fransquinha, assim conhecida e tratada pela
família, era muito querida pelo avô Lourenço Pereira, vivendo mais com ele do
que com seus pais. O avô tinha um zelo muito forte pela neta que se dedicava
aos afazeres domésticos.
Porém, a vida da menina mudou quando encontrou aquele que se
tornaria seu futuro marido. Apaixonados, eles apressadamente falaram em
casamento, o que assustou seu avô Lourenço que a achava muito nova para
constituir uma família. Apesar da resistência do avô, o amor foi mais forte, e
eles trataram, sem demora, de se casar na igreja no dia doze de junho de 1920,
ela ainda faltando quatro meses para completar treze anos de idade e ele
próximo dos vinte e cinco.
Após o casamento, fixaram morada em Mucambo. Tinham uma vida
simples, ela dedicava-se à casa, e ele, já com experiência nos negócios,
trabalhava no comércio, um armazém que atendia ao consumo das famílias locais,
e além disso, comprava e vendia produtos agrícolas, fonte de renda da maioria
da população que era predominantemente rural.
Com o tempo, os filhos começaram a nascer e juntos tiveram
dezesseis filhos: Ângelo Azevedo Araújo, o primogênito que recebeu o nome do
avô materno, uma homenagem da mãe. Este formou-se em medicina e foi o primeiro
médico da cidade, atendendo a carência de profissionais de saúde no município,
comum na época. Faleceu aos noventa e dois anos em Fortaleza no ano 2017.
Depois vieram a senhora Fabíola, falecida aos sessenta anos,
o senhor Gerardo Azevedo Araújo, que com a emancipação de Mucambo em doze de
dezembro em 1953, candidatou-se a prefeito e foi eleito em três de outubro de
1954 pelo PSD. Contudo, perto de completar seu mandato de prefeito e já
candidato a deputado estadual, foi assassinado em onze de agosto de 1958 por
seu opositor na política, Francisco Antônio de Sousa, conhecido como Chico
Antônio e enfermeiro do posto de saúde da cidade.
O quarto filho foi o senhor Mauro Azevedo Araújo, engenheiro
civil, que faleceu aos 82 anos. Em seguida, nasceram Ivone Araújo Chaves, viva
com 92 anos, Terezinha Araújo Rodrigues, ex-diretora da Escola Estadual de
Ensino Médio José Cláudio de Araújo de 1959 a 1980, está viva com 90 anos,
Zenaide Araújo Brandão, também foi diretora da E.E.M José Cláudio de Araújo nos
anos de 1957 e 1958 e já é falecida, Socorro Araújo Vasconcelos, já falecida,
Diva Araújo Gondim, esposa do senhor Gumercindo Ramalho Gondim, eleito
vice-prefeito nas eleições de 1962 pelo PSD e cunhado do saudoso Gerardo
Azevedo Araújo.
O décimo filho foi Raimundo Nonato Azevedo Araújo que se
candidatou a prefeito nas eleições de 1976 pelo MDB e foi vencido por Alberto
de Sousa Melo da ARENA, encerando a participação da família na política.
Posteriormente, vieram Tarcísio Azevedo Araújo, já falecido, Vilma Araújo
Coelho, Fátima Azevedo Araújo, falecida aos 4 anos de idade, Rita Célia Azevedo
Araújo de Medeiros, hoje com setenta e seis anos, Francisco José Azevedo Araújo
e Josefina Azevedo Araújo.
Com suas habilidades natas, Zé Manso, como era chamado pela
população, começou a se destacar como um comerciante de sucesso, acumulando um
patrimônio que lhe deu as condições necessárias para dar uma vida confortável e
formação aos filhos. Sua competência e seu caráter, também, chamaram a atenção
do povo, que passou a admirá-lo como um político influente. Sua liderança
agregou aliados que o enxergavam como um homem empreendedor e comprometido com
a evolução política do então distrito de Mucambo.
Nas eleições de 1945 para presidente da república, o líder
político apoiou ativamente o General Eurico Gaspar Dutra que foi eleito para
presidente do Brasil, com mandato de 1946 a 1950. Nas eleições de 1947, como
chefe da legenda do PSD, apoiou o general Onofre Muniz Gomes de Lima para
governador do estado do Ceará, porém este perde as eleições para seu
adversário, o desembargador Faustino de Albuquerque, da UDN.
Mas isso não o desanima, pois seu irmão, Raphael Cláudio de
Araújo, grande empresário da produção de banha de porco e lançado pelo PSD a
vereador de Ibiapina, é eleito com 297 votos. Nesta mesma eleição, Napoleão
Neri de Aguiar, um comerciante rico, nascido em Tianguá e residente na cidade
desde 1908, também se candidata a vereador e é eleito com 275 votos pela UDN. O
primeiro aceno foi dado para a emancipação de Mucambo.
Traçando planos para Mucambo, os irmãos Raphael Cláudio e
José Cláudio, assim como os irmãos Lourenço Pereira e Serafim de Aquino que
desejavam o desenvolvimento do distrito de Mucambo, deram o segundo passo para
a independência política da cidade: a candidatura de Raphael Cláudio para
prefeito de Ibiapina nas eleições de 1950.
Com a vitória de Raphael Cláudio de Araújo pelo PSD e o
apoio da Paróquia de Nossa Senhora Santana, recém-instalada aqui em primeiro de
janeiro de 1951 e representada pelo primeiro vigário da cidade, Padre Domingos
Gusmão de Saboia, religioso com forte influência espiritual e política, o sonho
de emancipação de Mucambo tornou-se realidade em 12 de dezembro de 1953. Como
resultado, em 1954, houve eleições, e pelo mesmo partido, o sr. José Cláudio de
Araújo candidata-se a vereador e lança seu filho, Gerardo Azevedo Araújo, a
prefeito de Mucambo.
Com a vitória de ambos, veio o desafio de trazer para o povo
mucambense o desenvolvimento e, trabalhando ao lado do filho na câmara de
vereadores, tratou com empenho de aprovar projetos que viabilizassem os desejos
da população, principalmente do acesso a água potável, reivindicação antiga e
atendida com a inauguração do açude Ibiapina, atual Antônio Portela Aguiar, em
1957.
Nas eleições de 1958 e final de mandato como vereador,
apoiou a candidatura do filho a deputado estadual, do irmão Raphael Cláudio de
Araújo a prefeito, do senhor Parsival Barroso a governador do estado e do
senhor Expedito Machado a deputado federal, todos pela coligação PSD, PTB e
PRP. A vitória seria completa se uma tragédia não tivesse acontecido: o
assassinato do seu filho Gerardo. Isto marcou para sempre a vida do líder
político, frustrando seus projetos e sufocando seu orgulho paternal.
Esse terrível momento que lhe causou um grande abalo não o
fez parar, mas refletir e continuar na missão, pois depois de quatro anos, nas
eleições de 1962, manifestava seu apoio à candidatura de Gumercindo Ramalho
Gondim, seu genro, a vice-prefeito, alcançando um total de 1.144 sufrágios,
mais votos que o prefeito eleito Francisco Chagas Lopes, com 1.105, já que
naquela época prefeito e vice eram votados separadamente. Ou seja, caso fosse
candidato a prefeito, Gumercindo teria sido vitorioso.
Novamente, nas eleições de 1966, volta a concorrer, desta
vez como candidato a prefeito pela ARENA 2, mas, agora, em oposição ao seu
irmão Raphael Cláudio de Araújo da ARENA 1. Não se sabe exatamente o motivo que
levou o rompimento da aliança entre os dois naquele cenário político de
Mucambo, ainda marcado pela fatalidade do 11 de agosto de 1958 que chocou
famílias e causou grande comoção entre os cidadãos. Contudo, os irmãos
mantiveram a paz e o respeito entre si. No final, seu irmão é eleito com uma
vantagem de 204 votos.
Com setenta e um anos, seu vigor já não era o mesmo,
passaram-se os anos e agora restava-lhe, junto a sua querida Fransquinha, seus
filhos, noras, genros e netos, desfrutar das conquistas e compartilhar com a
família o que cultivou como cidadão, cristão, político e esposo: o respeito, a
fé, a honestidade e a amizade. Estas foram as virtudes que mais zelou em vida,
patrimônio indissolúvel, seu maior legado que será sempre lembrado por seus
parentes, amigos e correligionários.
Ainda vivendo em Mucambo com a esposa, nos anos de 1970,
José Cláudio de Araújo continuava com sua vida simples, sempre rodeado da
família. Nas eleições de 1976, seu filho, Raimundo Nonato Azevedo Araújo,
decide se candidatar a prefeito pelo MDB e é vencido pelo seu opositor. Antes
mesmo que ocorressem as eleições em 15 de novembro, já apresentando um estado
de saúde frágil e levado a Fortaleza para tratamento, o sr. Zé Manso falece no
dia vinte e cinco de agosto de 1976, aos oitenta e um anos. Segundo comentários
da época, antes de morrer, pediu para ser enterrado na cidade onde viveu,
trabalhou e construiu laços, talvez para ficar próximo do filho que admirava e
que tão cedo partiu, interrompendo seu sonho político, entretanto, foi
sepultado no cemitério Parque da Paz em Fortaleza.
Comovida pela morte do companheiro e já morando em
Fortaleza, a senhora Francisca Azevedo Araújo, a dona Fransquinha, começa a
apresentar complicações de saúde e após dois anos e meio da morte do marido,
falece no dia vinte e seis de fevereiro de 1979 aos setenta e um anos. Foi
enterrado ao lado do marido no cemitério Parque da Paz. Finda-se, aqui, a
trajetória do casal que entrou para a história de Mucambo!
Hoje, em sua memória, há uma Escola Estadual de Ensino Médio
- cumprimento do Decreto 12.685, D.O de 17/02/1978 da Secretaria de Educação do
Estado - localizada na rua central da cidade que também recebe seu nome,
homenagem prestada pelo vereador Hamilton Azevedo no ano de 1994, e onde,
situava-se a residência de José Cláudio de Araújo, sua morada enquanto viveu em
Mucambo.
Luiz Renato Aguiar Lima
FONTES DE PESQUISA
IMPRESSAS:
• Braga, Solon de Castro. O Linchamento de Chico Antônio no
Contexto Social e Político de Mucambo – 1950 -1958, Sobral, 2019.
• Fotografias;
• Gomes, Nonato. Prefeitos de Mucambo, 1954 – 2020. 67 Anos
de Realizações.
• Sousa, Francisco das Chagas. Biografia de Serafim Pereira
Lima (Serafim de Aquino) Um dos fundadores de Mucambo, Mucambo, 2010.
• _______. Biografia de Lourenço Pereira.
• _______. Biografia de Raphael Cláudio de Araújo.
• _______. Biografia de Gerardo Azevedo Araújo.
ORAIS:
• Entrevista com Iraldice Freire Duarte – Professora
municipal aposentada.
• Entrevista com Socorro Azevedo Lima – Professora estadual,
66 anos, aposentada.
• Entrevista com Lourenço Teodoro Lima – Agricultor
aposentado, Filho de José Teodoro Lima e neto de Lourenço Pereira.
• Entrevista com a dra. Lucilene Rodrigues Pontes –
Farmacêutica, neta de José Cláudio de Araújo.
• Entrevista com Rita Célia A. A. de Medeiros – Aposentada,
76 anos, filha de José Cláudio de Araújo.
• Entrevista com Antônia Lurdes Silva – Amiga da família.
VIRTUAL:
• Contato via Messenger com Ângela Márcia Araújo – Filha de Ângelo Azevedo Araújo e neta de José Cláudio de Araújo.

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