sexta-feira, 3 de julho de 2026

DEPOIS DA ELEIÇÃO OU NO DIA DE SÃO NUNCA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

O novo grito de guerra em Brasília é: que tal deixar para depois das eleições?

Carta com pedido de Flávio Bolsonaro sobre adiamento de tarifaço dos EUA é um desastre

A carta do senador Flávio Bolsonaro para o governo Trump, via Escritório de Comércio (ou USTR), é um desastre para o próprio Flávio, sob todos os pontos de vista, político, diplomático, até moral. Quer dizer que um novo tarifaço agora não pode, porque é bom para o presidente Lula, mas, depois das eleições, depende de quem ganhar?

O importante para o candidato não é se é bom ou mau para o Brasil e os brasileiros, o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo, dane-se o resto. Aliás, foi assim em cada passo do bolsonarismo para se aproximar de Trump e se distanciar do Brasil.

O então deputado Eduardo Bolsonaro articulou o primeiro tarifaço, de 50%, para tentar salvar o pai, Jair, no Supremo, apesar do evidente estrago que isso produziria na economia do País. Aliás, como produziu, até que Lula e Trump abrissem um diálogo institucional, agora rebaixado a troca de cartas.

Depois, o próprio Flávio assumiu a articulação do novo tarifaço, com base na Seção 301 de Comércio, tanto que o anúncio de Washington saiu dias depois do encontro dele com Trump. Aquele, em que ele aparece nas fotos de pé, com Trump ao lado, sentado.

O novo capítulo, às vésperas de Flávio participar de uma audiência pública nos EUA, é a carta para o USTR, que, num resumo livre, pode ser lida assim: desculpem, foi mal, mas fizemos uma besteira atrás da outra e deu tudo errado.

Citando pesquisas, ele diz que novas tarifas dariam “vitória política” para o governo Lula e “puniriam a economia americana e os próprios brasileiros”. Alguma surpresa? É como se ele não tivesse nada a ver com isso, mas foi o próprio Flávio quem se vangloriou de ter conseguido as medidas – que, aliás, atingem o Pix.

Michelle Bolsonaro também quer parar o tempo e já avisou que não vai mexer uma palha na campanha do enteado. E depois? Depende do resultado?

No campo oposto, as investigações do escândalo contra velhinhos e velhinhas do INSS, que esbarram em Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, andam meio paradas. Só depois das eleições, também? Dependendo de quem ganhe?

E a delação de Daniel Vorcaro, que pode detonar Flávio, o ex-líder do governo Lula Jaques Wagner, o ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro Ciro Nogueira, o ministro do STF Alexandre de Moraes e um punhado de governadores? Depois das eleições? Será?

Em alguns desses casos, as consequências realmente dependem de quem ganhe. Em outros, que envolvem direita e esquerda, governo e oposição, nem em novembro, nem em 2027, nem em 2028... Só no Dia de São Nunca?

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