Ele papagueou mentiras com o mesmo objetivo do presidente
dos EUA, de preparar terreno para o caso de derrota
Flávio Bolsonaro não mirou o exemplo do pai quando resolveu,
também em reunião com embaixadores, propagar mentiras sobre as urnas
eletrônicas. Enrolado com supostos pagamentos de Daniel Vorcaro para o “Dark
Horse” e, agora, com as notas fiscais canceladas para uma empresa da teia do
Master, sem conseguir fechar coligações com outros partidos e atingido pelo
barraco com a madrasta Michelle, o pré-candidato do PL inspirou-se no exemplo
de Donald Trump. Papagueou as mentiras sobre as urnas eletrônicas com o mesmo
objetivo do presidente americano: preparar terreno para o caso de derrota.
Na semana passada, Trump espalhou a mesma cascata sobre as
urnas eletrônicas que Flávio. Fez referências indiretas à Smartmatic, empresa
de tecnologia da Venezuela, alimentando teoria da conspiração já batida nos
Estados Unidos sobre fraude nos sistemas eletrônicos de votação. Trump está às
vésperas das midterms, eleições de meio de mandato, num contexto político e
econômico que pode levá-lo a perder a frágil maioria no Congresso. Questionar
desde já o processo eleitoral garante, em caso de derrota, um discurso para a
base trumpista mais aguerrida.
Como a vida de Flávio também não está
fácil, ele reproduz o método por aqui. A desinformação sobre as urnas dá uma
porta de saída para engajar os eleitores mais fiéis do bolsonarismo, se o
resultado eleitoral for desfavorável. Como já se disse por aqui, a candidatura
de Flávio existe em razão desse único propósito, que é manter o núcleo
bolsonarista unido em torno do espólio eleitoral do pai. Se ganhar, ótimo. Se
perder, beleza, desde que o bolsonarismo sobreviva como força política. A razão
de ser da candidatura de Flávio é, portanto, o que o leva a fazer o discurso
contra as urnas. O objetivo é evitar que o seu eleitorado flerte com outros
candidatos que usam o mesmo tipo de enganação sobre o sistema eleitoral para
atrair o eleitor.
Por outro lado, Flávio encontra hoje no TSE uma conjuntura
mais amigável, distinta daquela com que Jair Bolsonaro se deparou em 2022,
quando a presidência era de Alexandre de Moraes. O atual presidente, Nunes
Marques, e o ministro André Mendonça foram indicados por seu pai e ambos têm
uma interlocução mais próxima com o bolsonarismo. Nunes Marques poderia ter
divulgado uma nota própria condenando as declarações mentirosas de Flávio, mas
preferiu evitar polêmica e republicar uma de 2022. Não se pode esperar do atual
presidente a eloquência de Moraes na defesa das urnas. Com a Resolução 23.648,
de 2021, que regulamentou o poder de polícia no TSE, Moraes foi para cima das
big techs. Criou núcleo de investigação que produziu vários relatórios sobre
desinformação nas redes. Essas investigações balizaram decisões que suspenderam
diversos perfis e postagens. Nunes Marques não comprará essa briga, assim como
não comprou ao votar contra a condenação de Jair Bolsonaro por abuso de poder
político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores.
Sob a sua presidência, a defesa do sistema eleitoral deve ser feita de maneira
mais discreta, com um uso menor do poder de polícia e sem apontar os dedos para
os disparates de Flávio sobre as urnas.
Se a maré continuar ruim para o pré-candidato do PL, uma
coisa é certa. O culpado será o mordomo. No caso, a urna eletrônica.

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