Dirigentes dos partidos deixaram papel administrativo
para avançar sobre atribuições legislativas
Quem controla a distribuição das verbas públicas tem
poder de mando sobre deputados e senadores
A descoberta
da Polícia Federal sobre a captura de emendas ao Orçamento em proveito
de Valdemar
Costa Neto vai além de prejuízo que o presidente do PL possa causar à
candidatura presidencial do partido, na figura de Flávio Bolsonaro.
Diz respeito, sobretudo, ao poder dos dirigentes partidários
em relação à distribuição de verbas públicas. Fala-se em uso
"irregular", mas o que se tem nos apontamentos da PF é o relato de
uma ilegalidade das mais graves, que traduz o alcance do controle dos comandos
dos partidos sobre as atribuições do Legislativo.
O mando de fora do campo regulamentar
evidenciou-se também na decisão do ministro
Flávio Dino sobre o ex-deputado Eduardo
Cunha (Republicanos-MG) que, assim como Valdemar, teve bloqueados seus
milhões em contas e bens adquiridos com dinheiro destinado a emendas de uso
exclusivo —e atualmente abusivo— de parlamentares.
A influência dos burocratas de partidos aumentou muito desde
que as campanhas eleitorais passaram a ser financiadas por dinheiro público.
Recursos que neste ano vão à casa dos R$ 6 bilhões se somados os fundos
partidário e eleitoral.
Verbas controladas pelas cúpulas das legendas, que deixaram
o papel de estrutura administrativa para assumir a primazia exclusiva na
distribuição do dinheiro para as campanhas de deputados e senadores.
Com isso, dirigentes como Valdemar Costa Neto concentram um
poder enorme sobre parlamentares e funcionários de gabinetes. Ingerência que se
estende a Eduardo Cunha, cuja atuação, segundo a polícia, teria autorização do
presidente da Câmara, Hugo Motta.
Esse é um dos aspectos das exorbitâncias decorrentes do
financiamento usado com total desrespeito ao público. Não será surpresa se o
ministro do Supremo que há dois anos —desde agosto de 2024— está no encalço dos
desvios de emendas, decidir estender as investigações às direções dos demais
partidos com representação no Congresso. Ali Flávio Dino deve achar farto
material para encorpar a empreitada.

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