Última campanha eleitoral do presidente começará na Vila
Euclides, no lugar onde iniciou sua trajetória política
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma
contradição. Prestes a completar 81 anos em 27 de outubro, dois dias após o
segundo turno das eleições, ele já tem a retórica contra o etarismo: “Tenho
compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, tem reiterado. Mas o
desafio vai além: implica pregar o futuro e vender esperança aos brasileiros
após quatro décadas de vida pública, três mandatos presidenciais e alta
rejeição.
A mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada
na quarta-feira (14), mostrou que 50% dos entrevistados conhecem e não votariam
em Lula. Este dado atesta o cansaço de metade do eleitorado com o líder
petista. Porém, mesmo diante desse obstáculo, o presidente decidiu caminhar
rumo ao quarto mandato embalado de passado. Eis o paradoxo.
Os principais coordenadores da campanha
lulista são quadros que o acompanham há mais de 40 anos, desde a fundação do
PT, e que participaram dos mandatos anteriores, como o ex-ministro Gilberto
Carvalho, responsável pela agenda; o ex-presidente do Sebrae Paulo Okamotto,
que cuida dos comitês regionais e das redes sociais; o ex-presidente da Petrobras José
Sérgio Gabrielli, que elabora o programa de governo; o ex-prefeito de Diadema
José de Filippi Júnior, tesoureiro.
Um aliado observou à coluna que Lula restringiu o círculo de
pessoas autorizadas a orbitarem no seu entorno, principalmente, após os 580
dias em que ficou preso nas dependências da Polícia Federal em Curitiba (PR).
Desde então, ele tem guardado na memória os nomes de quem permaneceu do seu
lado nos dias amargos. A nova geração é minoria no time, com destaque para o
ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), o
ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT) e a vereadora e pré-candidata a
deputada federal Luna Zarattini - quadro da novíssima geração do PT, ela se
elegeu em 2024, com mais de 100 mil votos, ficando entre os dez mais votados
para a Câmara Municipal de São Paulo.
Outro aceno ao passado é a escolha do estádio da Vila
Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), para o lançamento da campanha em 16 de
agosto. Segundo uma fonte do PT, Lula quer começar a última campanha eleitoral
no lugar onde iniciou sua trajetória política.
A Vila Euclides é o cenário de imagens icônicas do jovem
líder sindical. No dia 13 de março de 1979, Lula liderou a histórica assembleia
dos metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano. Naquela
data, cerca de 60 mil trabalhadores ocuparam o gramado e as arquibancadas para
ouvir o colega de fábrica.
Sem palanque ou sistema de som, ele subiu sobre uma mesa de
escritório, com um megafone à mão. As palavras dele eram repetidas em coro
pelos mais próximos, e repassadas até chegar aos que estavam atrás. Sob forte
repressão e intervenção do governo nos sindicatos, a meta era obter 78,1% de
reajuste. Ao fim, alcançou-se 63%. Foi a maior conquista salarial daquele
período.
Nesse contexto, no entanto, um dado da última Quaest chamou
a atenção. Foi a primeira rodada em que a aprovação do governo Lula superou a
desaprovação, desde dezembro de 2024. Essa reação foi puxada, justamente, pelos
eleitores mais jovens, de 16 a 34 anos. Nessa faixa etária, a aprovação ao
governo cresceu cinco pontos percentuais, de 43% para 48%.
Contemplar esse público é, especialmente, desafiador, a
começar pela taxa de desemprego. Entre jovens de 18 a 24 anos, ela é de 13,8% -
mais que o dobro da média nacional, que é de 5,8%. Entre adolescentes de 14 a
17 anos, chega a 25,1%. Além disso, é a geração que rejeita a CLT.
Luna Zarattini disse à coluna que Lula “se aproxima da
juventude e aponta o Brasil do futuro quando aborda os problemas reais da vida
do jovem”. Ela cita como exemplo a defesa do fim da escala de trabalho 6x1,
porque “o jovem quer trabalho decente”, e a criação de oportunidades na
educação com os Institutos Federais. “O presidente sabe que a democracia sem a
participação da juventude é incompleta. As pesquisas recentes mostram que os
posicionamentos políticos firmes do presidente seja em relação a avanços nos
direitos ou na defesa da democracia e soberania contra a intervenção dos EUA
demonstram para juventude o projeto de Brasil que defendemos”, afirmou.
Outro aliado considera equivocado interpretar a escolha da
Vila Euclides para lançamento da campanha como uma aposta no passado. Trata-se,
segundo ele, de apostar na emoção como fator de decisão do voto. Ele convidou a
coluna a imaginar a cena. Com a voz embargada, Lula se voltará à multidão
presente para afirmar que, após 47 anos de vida pública e três mandatos de
presidente, sempre comprometido com a democracia, ele vem pedir o voto e a
confiança dos brasileiros pela última vez para que possa completar o seu
legado.
Se em 1979, Lula falou para 60 mil pessoas na Vila Euclides,
o público do lançamento da última campanha lulista deverá girar em torno de 15
mil, capacidade máxima do local. No passado, as multidões também ocuparam as
ruas no entorno do estádio.
Sem dúvida, Lula tem o direito de resgatar sua história para
dialogar com o presente. Errado será criar um museu de velhas novidades.

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